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Pela meada de Dezembro, botou-me a mulher à luz outro catraio. Com este já eram cinco os que faziam algazarra e a largueza do casebre era pouca para dar poiso a tanta gente.

Numa noite o crianço berrava e galreava desenfreado, sendo de todo impossível pregar olho. Não tive remédio senão pegar na samarra e ir direito à corte, deixando a mulher entregue àquela praga. Peguei numa facha de palha trigueira, espalhei-a pelo chão, e ali me espojei junto do macho, a matutar se valeria a pena trazer mais vidas ao mundo.
Sendo o frio de rachar, apertei a samarra e cheguei-me para a roda do macho, meu velho companheiro de muitas aventuras. E não é vergonha contá-lo, que já Nosso Senhor, quando veio encarrapato ao mundo, não teria sobrevivido não fora o bafo de uma vaquita e dum burreco que o aqueceram naquela fria manjedoura de Belém.
Noite alta, fui acordado por estranho arruído. Fitei a orelha e quedei-me atento. Pareceu-me que alguém tentava abrir o cancelo do curral. Levantei-me de manso e botei as mãos ao cajado, não fosse gabiru que viesse a roubar os ovos da capoeira. Apercebi-me depois que alguém entrava no curral. Esperei e, quando senti passos próximos da corte, abri num repente a porta e saltei para fora de arrocho em riste.
– Eh, ladrão! Ficas quedo ou já te vindimo!
O vulto começou a dar ao satrás e, tropeçando num cepo, emborcou na gamela dos porcos.
– Ai, ai, ó ti Zé! Não me derranque que sou eu!
– Mas, és tu quem, estafermo? Vinhas aos ovos das pitas? Eu já te canto o fado.
– Não me dê, ti Tosca, não me dê! Sou o Manel Lapinhas!
Fiquei embasbacado. Então que fazia o filho do meu grande amigo Tomé Lapinhas ali no meu curral?
– Tu, rapaz? Que buscas aqui a esta hora da noite?
– Vinha a ver se por aqui tinha umas leias ao descuido para segurarmos uma carrada de paus pró madeiro – disse-me o galfarro, a modos que medroso, pois nem a todos agrada a lide dos moços da aldeia que, nas noites que antecedem a do Sagrado Nascimento, pilham lenha para a amontoarem no adro e lhe apicharem lume à hora da missa do galo.
– Ora essa, e não dizias água vai? Eu te arranjo o que procuras.
Voltei-lhe as costas e enfie-me na corte, a fim de encontrar as cordas de encarrar.
Demorei-me um gorcho, que um homem raro encontra à primeira aquilo de que tem precisão, e quando volvi com as leias nos braços reparei que o moço já não estava no curral. Soaram baques e falas curtas, vindos do exterior, pelo que me apressei a abri o cancelo, reparando que meia dúzia de rapazes rodeavam um carro de vacas pejado de lenha que seguia ladeira abaixo.
Estive para correr a trás dos tratantes, para recuperar a lenha que certamente me surripiaram da moreia enquanto fui ver das cordas, mas lembrei-me da tradição de Natal e do tempo em que também eu fora moço solteiro e tivera por igual missão acarear a lenha para aquecer o Menino.
Volvi a entrar no curral e lancei o reparar na moreia da lenha, tomando fé de que me haviam surripiado uma boa dúzia de trepolas de castanho.
Conformado e sentindo que a frealdade da noite se me entranhava no corpo, voltei a tombar-me ao redor do macho, e ali adormeci enlevado na recordação dos meus tempos de cachopo.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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Poetas e prosadores, ensaístas e filólogos, não se têm dado sossego na análise e aprofundamento do conceito de mito.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaPara Fernando Pessoa o mito é o nada que é tudo, para Almeida Garrett, trata-se de palavra grega que em tudo se mete e com a qual se procura explicar o que não tem explicação; os dicionários consideram-no feito fabuloso atribuído a divindades ou personagens que são divindades desfiguradas, para ensaístas, trata-se de narração de factos ou tempos que a história não esclarece e contendo ora um facto real convertido em noção religiosa, ora a invenção de um facto com o auxílio de uma ideia.
Mais aprofundadamente, há quem o defina como preciência, ou seja como um estádio que acabará por desembocar no conhecimento racional, depois de visionado profética e simbolicamente.
Quanto à Europa, numerosos mitos constam da Epos: o do nascimento (filha de Agenor e Telefasa, reis para lá do Ponto Euxino); o das suas relações de parentesco (irmã, pelo menos, de Fénix e de Cadmo); o de objecto de rapto, atribuído a Júpiter disfarçado de touro; o do encontro das tábuas do destino; o da rememoração de êxtase genesíaco e o invento da vaca amoldável; o do nascimento do Minotauro; a cornucópia da amalteia…
Esta última, por símbolo de todas as abundâncias, parece ter ficado para sempre ligada à ideia de Europa.
Assim, pelo menos, a têm encarado os filhos dos demais continentes, em corolário a ela recorrentes nas épocas de crise.
Aliás, a imagem vem de longe e nem sequer Camões, mau grado a sua precária existência, lhe sofreou reflexos.
A de portadora, não das tábuas da lei, que talvez mais legitimamente se podia arrogar, mas de detentora das chaves do destino mundial é prerrogativa que se julga real, até quando os planos de domínio se gizam extramuros, como aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial com os eixos do poder desfocados para a América ou a Rússia, mais asiática que europeia.
Aqui, regressa-se a outro mito: o das origens. Filha de Fenícios, irmã da própria Fénix, a Europa sempre guarda alguma coisa de asiático, mesmo que seja por simples reacção.
Cadmo também deixou marcas. Mais uma vez nos socorremos de Camões:

Ó míseros cristãos, pela ventura,
Sois os dentes de Cadmo desparzidos
Que uns aos outros vão dando a morte escura
Sendo todos de um só ventre produzidos.

As guerras entre europeus, os mestres as apelidavam de guerras civis. Por vezes, a identidade de objectivos assume a natureza de falácia.
Eu e o meu Primo Francisco I, dizia Carlos V, temos uma ideia que nos une: ambos queremos Milão… Só que esta união gerava o fratricídio.
Simultaneamente, fastos e nefastos se revelavam também os mitos ligados ao touro joviano e suas repercussões.
A Europa corre o mundo sobre o rapto de Júpiter; ou nostálgica de genesíaca sensação… suas redomas.
As atitudes diametralmente opostas nasceram da mesma ideia.
A vaca amoldável em que a Europa se refugiava para novamente atrair o touro divino assemalha-se às couraças materiais com que pretende acobertar-se; ou a desvirtuamento espiritual que algumas vezes torna a regra.
União monstruosa gerou para a lenda do Minotauro, para a História tem já sido a origem de inenarráveis tragédias.
Os conflitos internacionais (e bastará citar as chamadas guerras dos cem, trinta e dos sete anos, as campanhas napoleónicas, a primeira e segunda grandes guerras), as questões religiosas e ideológicas que repetidamente têm ensanguentado a túnica que se pretenderia branca e inconcussa desta velha Alma Mater de civilizações, não passam de monstruosas criações geradas por cópulas igualmente monstruosas.
Para as evitar, urge purificar os mitos e, passando-os da fase presciente à do pleno conhecimento substituí-los pelas grandes ideias que estão na base do europeísmo: a cultura greco-latina, as sublimidades do cristianismo, o primado do espírito.
Não para combater a técnica e a revolução material. Mas para as colocar no seu papel de servidores do homem.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

JOAQUIM SAPINHO

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