Ei-los que partem… Ou como nos mandam embora!
Ou ainda, como nos estamos a marimbar!

Aproxima-se uma quadra que, ainda que religiosa, vai muito mais além do que a religião. O Natal. É nesta altura que todos se recordam um pouco dos outros e conseguimos enxergar que, afinal, o outro, a quem nataliciamente estendemos a mão, está ali sempre. Diria que conseguimos ser menos egoístas e indiferentes por esta altura e isso, de certa forma, deixa-nos bem connosco.
A ideia da crónica desta semana estava focada nesta quadra, e o que ela representa enquanto significado religioso e como ela se transformou num negócio. Todavia, o governo deste país, resolveu não ter tento na língua e, muito menos «careio» (como se diz na minha terra), na violência com que trata os seus cidadãos! Daí que me tenha lembrado de um poema do poeta Bertolt Brecht. Diz mais ou menos assim, primeiro vieram buscar o judeu e eu não me importei, pois eu não era judeu. Depois vieram buscar o negro e eu não me importei, pois eu não era negro… até que um dia me vieram buscar a mim! E, a causa de tais versos me saltarem à memória, foram, primeiro as palavras do secretário de estado da juventude, dizendo aos jovens para emigrarem. Procurei entender qual seria o ponto de vista de tal iluminado… confesso que não entendi! Então, um secretário de estado da juventude, em vez de levar esperança e crença no futuro, manda a malta ir embora?!! Bom, pensei, é uma voz isolada, por ventura um pouco toldada por qualquer motivo… Mas não! Era o pronúncio, assim uma espécie de profecia, para o grande momento! O primeiro ministro apontava, finalmente, um rumo para o país! Os jovens já foram convidados, agora convidam-se os professores para ir embora! E imagino quanta gentinha terá dito “muito bem”! Corra-se com esse bando que ganham muito e não trabalham nada! Mas, amanhã, serão os médicos, depois, os militares, depois os idosos (é uma chatice! só dão despesa), depois os juízes, depois estes e aqueles, depois… Até que fica somente o governo a falar com a troika. Porque a sociedade está como os versos desse poema. Não nos importamos, porque não é connosco, até que batem à nossa porta!
A prova-lo, aí está mais um ataque a quem trabalha, através da nova proposta da lei laboral. Para efeitos de reforma, contava trinta dias por ano de trabalho, a troika apontava para vinte, o governo avança com oito a dez dias. Os três dias de bónus aos trabalhadores de férias por comportamento no que diz respeito á assiduidade, desaparecem. Se somarmos a meia hora e o fim de feriados, chegamos depressa à conclusão em que, para se trabalhar é preciso, para além do trabalho, pagar! Desconfio que regressamos rapidamente à segunda metade do séc. XIX! À exploração nua e crua do trabalhador pelo patrão, seja este qual for. A nova escravatura está aí! Mas não nos importamos, não é connosco…
Se o outro se estava a marimbar para a dívida, neste país, toda a gente, infelizmente, se está a marimbar!…

Desejo a todos um Natal cheio de paz e felicidade!

P.S. 1 Saúdo aqui Eduardo Lourenço pelo Prémio Pessoa. Parabéns!
Dizia ele aquando da nomeação, que era como receber um pouco do próprio poeta Pessoa! Para nós beirões arraianos, o prémio de Eduardo Lourenço, é como se fosse um pouco nosso também!
P.S. 2 Também aqui, deixo o meu lamento e as condolências pela morte de Cesária Évora. Grande embaixadora da lusofonia.
P.S. 3 Uma nota para a memória de Vaclav Havel. Para além de um intelectual, desparece um democrata e um europeísta.
P.S. 4 Já agora, como Leitura neste Natal, leia ou releia Bertolt Brecht!

«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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