Depois do aziago passo na feira de São Pedro, no Sabugal, em que me quedei desprovido de montada por a ter perdido no vício do jogo, tive de refazer a vida e botar-me adiante, pois tinha uma família a meu cargo.

Já lhes fiz entender que não estava afeito à pacatez da vida de lavrador, agarrado à canga das vacas e à rabiça do arado. Para tal faina lá tinha a mulher e os catraios, que já eram entendidos na lida. Ademais, sem o negócio de contrabandista e azemel, a que me dedicara durante anos, dificilmente amanharia ganho para a merca do azeite para o caldo e da potassa para as barrelas da roupa.
O grunhame de reserva não era muito, mas a precisão fez-me juntar os conques que tinha no fundo da arca para ir à cata de novo macho. Tinha uma burranca velha, a Finota, que era o mimo da casa e o meio de transporte da canalha, mas que era de todo incapaz para as andanças do negócio.
Esperei pela feira da Freineda, que se fazia no dia de Santa Eufémia, a 16 de Setembro, e botei-me ao caminho ao romper da madrugada, carregando ao lombo um fardo de popelina que de caminho deixaria a um freguês.
Já na feira, fui-me ao terreiro do gado para mercar o novo muar. Dei uma volta a tomar fé do andamento dos negócios e quedei-me junto a um criador da Freineda, o Manuel Saroto, meu conhecido de há longa data, que ali apresentava para venda um possante macho zamorano. Mirei-o de alto a baixo, notando que tinha pernas fortes, sem mataduras, bom quadril, lombo escorreito, forte dentuça e boa venta para o cabresto. Era a montada que me servia. Reparei que dois ciganos andavam igualmente de roda do animal, tirando-lhe medidas.
A amizade que mantinha com o dono facilitou as coisas e após alguma conversa, um que puxa outro que ripa, fixámos em duzentos mil reis o fecho do trato, tendo eu ainda direito à albarda, alforges, cabresto, retranca e demais atafais do macho.
Os ciganos, ao notarem que o ajuste estava fechado aventaram uma proposta, a tentarem o Manuel Saroto, oferecendo os mesmos duzentos mil reis, acrescidos de uma burra branca que um deles segurava pela rédea.
Ora o Saroto, que além de amigo era homem de palavra, deu-lhes ao satarás, dizendo-lhes que o lance vinha a destempo.
– Olhe que uma burrinha branca é uma lanterna nas noites de breu – insistiu o cigano que segurava a burra.
– Mas pra que raio quero o asno? Já mal pode co’as patas! O macho vai pró o meu amigo Tosca, que com os duzentos mérreis me contento e sei que o animal fica em boas mãos.
– Mas nós cobrimos o lance – volveu o cigano.
– E ele a dar-lhe! O negócio está cerrado e não se fala mais nele! – afirmou o Saroto peremptório.
Os gitanos não se davam por vencidos, que na arte do negócio são mestres e não toleram que os desprezem. O que estava de mãos livres deitou a mão à prisão do macho, ripando-a das do dono, a quem deu um forte contrifão, que o ia tombando.
– O macho é nosso de direito. Ou aceita a bem ou viramos tudo a varapau – disse ainda em ar de ameaça.
Ora eu, que mau grado o meu interesse no trato estava quedo e caludo, não podia, já o sabem, ver um justo ofendido e maltratado, pelo que decidi repor a ordem. Apertei o varapau que sempre me acompanhava e dei dois passos adiante ficando de béculas para o tratante, em cujos olhos afirmei o meu olhar.
– Ó adrega do catano! O macho vende-o o dono a quem entende. Larga a arreata e aparta-te do caminho.
Em má hora intervi, pois o outro cigano ergueu a vara de freixo de picar os cavalos e mandou-me uma forte verduada no lombo que quase me botou em terra. Meio torcido mandei-lhe com o varapau à cabeça, fazendo-o recuar uns metros. E ia dar-lhe segunda tanganhada quando o outro, à falsa fé, me arrumou com uma pedra na nuca que me fez achicar no pó. Entontecido e sem reacção muscular vi que o mesmo vinha para acabar comigo quando o Saroto, de junto com outra malta, se interpuseram e meteram os ciganos na ordem. Juntou-se o povo, munido de estadulhos, varais e o que apanharam à mão, e correram com os sandeiros a toque de caixa.
Expulsa a ciganada, vieram por mim, que continuava jazendo sem forças e de vista turva pelo sangue que me escorria da cabeça. Tombaram-me numa cancela, onde me aconchegaram a cabeça ensanguentada com um avental enrodilhado e transportaram-me a casa do barbeiro. Já na habitação, mudaram-me para cima de uma arca, e uma mulher desatou-me o lenço que usava ao pescoço e desabotoou-me o colete, após o que todos saíram do aposento, deixando-me entregue ao mestre em curas.
O Amaro, homem muito bem apessoado, como o eram os barbeiros das aldeias daquele tempo, debruçou-se sobre a minha cabeça, examinando o farraiche. Cortou à tesourada os cabelos do local onde levara a testeirada, lavou-me o ferimento com abundância de água e desinfectou-o com recurso a uma caneca de vinho tinto.
– É mais a pinga que gasto a desinfectar esmichadelas que a que bebo de portas adentro – disse o barbeiro à farramalha, soltando a risa.
Depois fez o penso com um pano de linho e atou-me a cabeça com tiras de flanela. Findo o trabalho deu-me a mão e ajudou-me a erguer.
– Desta escapou vossemecê, ti Tosca, está pronto pra outra.
– A si o devo amigo Amaro, e ao povo desta terra que é gente amiga – disse-lhe.
Com a cabeça dorida e ainda meio entontecido ensaiei uns passos e caminhei para a porta, saindo para o balcão, a cujas guardas me amparei. Notei que soava um borborinho e ergui o olhar, dando de chofre com uma chusma de gente, que estava defronte da habitação olhando para mim com ar preocupado. Tomei a verdadeira noção do valor que tinha a amizade que ao longo de anos fizera com aquela gente da Freineda nas inúmeras vezes que ali fora por mor do negócio.
Desafiando a dor que ainda sentia, dei umas palavras, que a turba ouviu em silêncio:
– Em conta da ajuda que me prestasteis, convido-vos a todos para o albroque, que o negócio é de valia e levarei o macho para a Bismula, se ainda o consentir o meu amigo Manel Saroto.
– Ora essa, amigo Tosca, o negócio já estava fechado – disse o Saroto, que me veio dar um abraço.
Foi um pagode. O povo, folgazão como era, juntou-se na venda, ao lado dos pipos e ali se fez o chinfrim.
Por insistência do amigo Saroto acompanhei-o a casa, onde descansei o cadáver em riba de um enxergão. De madrugada botei-me ao caminho, escarrapachado no belo e possante macho zamorano que acabara de comprar e que haveria de viver comigo muitas aventuras por esses caminhos de Deus.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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