No que toca a feiras e romarias, tinha especial donairo em botar o pé à feira de S. Pedro, no Sabugal, onde ia à cata de negócio e também no fito de empancar com amigos e meter-me de súcia com eles.

Aquilo era uma feira de estalo! O largo da Fonte e ruas chegantes emprenhavam de gentiaga. Iam ali feirar louceiros da Idanha, sapateiros da Castanheira, chapeleiros de Pousafoles, albardeiros de Pinhel, carvoeiros de Malcata, criadores da vila e arrabaldes, feirões dos quatro cantos da Terra.
Duma banda era o mercado dos cereais, onde se vendia trigo, pão, milho, feijão, aveia e até farelo e carolo. Noutra parte estava o gado, em que vacas, burros, cavalos, cabras e mais vivo eram negociados. Debaixo das tendas ou à mercê da resca vendiam-se roupas, fazendas, ferrarias e bugigangas. A um canto era o mercado da fruta, legumes e mais novidades temporãs vindas de terras onde o clima era mais ameno.
Junto à fonte, de mantola ao ombro e aguilhada ou cajado nas mãos, prantavam-se ganhões e zagais que ofereciam os seus préstimos aos proprietários que deles tivessem precisão para todo o ano. Era uma vozearia tremenda entrepicada pelo constante ornear dos burros e o mugir das vacas.
Abanquei a meio da praça ainda antes de raiar o astro. No macho, carregado a preceito, trazia pana, saragoça, briche e popelina, tudo da melhor qualidade, que recentemente houvera passado a raia. Arremanguei a camisa e apus-me à lida, descarregando a fazenda e esbarralhando-a sobre de uma manta de farrapos que estiquei no solo. O negócio correu-me de feição e a meio da manhã tinha já a mercancia despachada e a bolsa atabicada de bilhostres. Dei graças a Deus pelo bom negócio, pois em casa o dinheiro não abundava.
Deixei o macho preso a uma estaca de ferro e decidi-me dar uma carreira pelo largo. Merquei aos louceiros uma caçoila e um barranho, que faziam falta à mulher para o preparo da miga. Já no mercado das vacas quis dar fé de como iam os negócios. Assisti ao acertar e romper dos tratos, dando também, quando calhava, o meu entender acerca das tramas que se iam enredando. Houve acesas arrelias e assisti mesmo a um barulho entre dois tinhosos que se não entendiam por mor de uma mula. Como tinha amigos em todo o arraial, era tido e achado na tenda da taberna a beber o albroque, quando se fechavam tratos. De tal modo lhe cheguei ao verdasco, que ao fim do dia dei por mim meio toldado da vista e de pernas trementes.
Foi já bem avinagrado que me engalhei mais uns comparças a bater as cartas numa loja. Comecei por ganhar e, na ânsia de inçar a pataqueira, apostei forte. E como às vezes não atinamos as voltas que a puta da vida dá, o certo é que a sorte me abandonou e num repente me vi perdedor. Deserto por recuperar o que me pertencera insisti na aposta, mas o acaso nada quis para a minha banda. Às duas por três vi-me despojado dos conques que fizera na feira, dos artigos que mercara para a mulher e até do macho e seus atafais. Parei ainda de roupa vestida, cioso da honra, e a tempo de não passar por vergonhas.
Estavanado pelo que me ocorrera e privado da montada, botei a penates, noite fora, para a minha santa terrinha. Pelo caminho matutei na vida e na asneira que fizera ao me enlear na jogatana. Senti-me um badagoneiro despojado de seus teres, um pobretana sem eira nem beira, nem pé de figueira, um bandalho que vagueia pelos caminhos.
Chegado a casa, manhã alta, mais morto que vivo pela lonjura da estirada e pelas consumições que me invadiam a alma, engendrei a ocorrência. Contei o perigo a que tinha estado sujeito, e a forma como me livrara dele, são e escorreito, ali estando pronto para enfrentar os dias vindouros. A canalha até chorou de emoção, mas o damóntre da mulher não se queria convencer que me tinham saído os ladrões ao caminho.
– Isso é que é uma estória! – tornou-me a Belmira – De malfeitores para aquelas bandas há muito que não se ouve falar. Por lá perdeste tudo no jogo, valdevinos!
– Vira pra lá essas ventas, rapariga! Atão depois do perigo que corri ainda me brindas com lérias?… E olha que se me não tenho defendido com unhas e dentes, já estavas viúva e com uma rodada de órfãos às costas.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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