É um impulso incontido! A ruralidade chama-me, acaricia-me a alma, devolve-me os sítios e as pessoas. Impõe-me o regresso…

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Em retornos sucessivos encontrei, muitas vezes, o meu velho amigo Matias da Silva. Desapareceu quando contava noventa e tal e, com ele, partiram pedaços importantes da minha vivência rural.
Era um velho guardador de memórias e um fascinante contador de histórias com quem eu tinha o hábito e o gosto de conversar. Ele não se fechava o dia todo a sacudir o pó dos seus velhos contos. Antes pelo contrário. O Silva gostava de sair e de expor «in lóco» as suas teorias.
Guiava-me, assim, com frequência e, ambos, fazíamos percursos de memória rendilhada. Seguíamos ruas e quelhas indagando carismas e segredos. Vencíamos veredas, contornávamos granitos e interpretávamos sombras. Ele foi o que, modernamente, poderíamos chamar «o meu GPS». Com a sua voz calma e rouca guiava-me os passos sem dar demasiada importância à cor dos dias. Os dois rompíamos nevoeiros ou claridades para desvendar os mais ínfimos lugares. Falava da história dos sítios e do significado das pedras. Explicava o anglo dos caminhos e adivinhava o sol e a chuva!
Com ele continuo, ainda hoje, a sair em pensamento! Relembro-lhe as sugestões, conselhos e pareceres.
Voltei, ontem, a perder-me, acompanhado pela sua recordação. Repeti uma das visitas como se ele me guiasse, parando em cada esquina. Abriu-se-me, de novo, a boca de espanto, mediante recordações antigas que, paradoxalmente, me parecerão eternamente novas.
Regressei ao Largo do Cruzeiro onde se situava a sua tasca agora encerrada, não só por défice de clientes mas também por falta de tasqueiro. Revisitei o recanto do Largo onde os caldeireiros gastavam dias e semanas martelando latas e chumbando os fundos aos caldeiros. Subi depois. Voltei a subir a única rua da aldeia e, como se sonhasse, voltei a pedir opinião ao Silva. Puxou-me, ele, de novo, pela rua esconsa até à subida para a velha capela, testemunha perene desde os primórdios da nacionalidade.
Desci, por fim, a caminho da minha velha casa reconstruída sobre mais de centena e meia de anos, no início da única rua que, engordando bastante, permite, ao meio, o tal Largo do Cruzeiro. Relembrei vinhos e bebedores, tremoços e comedores, aguardentes, obreiros de alambiques, sítios e épocas de destilação.
Fazia-se a aguardente no «Cabanal das Aguardentes». Incendiavam-se as noites com enormes fogueiras e as gargantas com bagaços quentes. Queimavam-se engaços. Aproveitavam-se as brasas (colossais) para assar chouriças, carnes e farinheiros.
Relembrei sabores e odores e recordei as histórias picantes do velho tasqueiro, porque ele sabia muitas e das boas!
Tal como noutros tempos ouvi o som corrido da água do audível ribeiro. E veio-me á ideia que o Silva foi, ele próprio, uma fonte viva. A sua recordação ficará (no meu sempre) à bica dos lugares que, por cá, têm história.
Aqui o trago hoje, ao meu velho amigo Matias da Silva, como embaixador de histórias e sabedorias. E, na figura dele, pretendo homenagear, também, todos os homens e mulheres da minha ruralidade.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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