A arqueóloga Maria João Santos visitou Vilar Maior com o intuito de verificar no local uma referência constante num artigo da revista Sabucale e deparou-se com o que parece ser uma nova descoberta. Numa laje junto à entrada do castelo pode ser visto, gravado na pedra, um jogo que se denomina «Alquerque de Nove» que remonta à época medieval desta vila do concelho do Sabugal.

Junta-se o texto que a arqueóloga Maria João Santos teve a gentileza de elaborar sobre o assunto para o Capeia Arraiana, com o intuito de assim contribuir para dar a conhecer mais este achado arqueológico que, obviamente, vem acrescentar valor histórico à localidade. Pretende-se também alertar para a necessidade de proteger, não só esta gravura, mas todos os achados arqueológicos recentemente postos a descoberto pelos trabalhos realizados, de forma a permitir a sua preservação como objecto de estudo e testemunho de interesse histórico para Vilar Maior e para o Concelho do Sabugal.
Kim Tomé

O Alquerque de Nove de Vilar Maior: apontamento de uma vivência medieval
As recentes escavações realizadas junto ao Castelo de Vilar Maior, cujos resultados aguardamos que sejam publicados em breve pelo importante conjunto de novos dados que certamente proporcionarão, colocaram a descoberto, junto à entrada da porta principal da fortificação, um motivo quadrangular gravado no próprio afloramento granítico, que cremos interessante dar a conhecer, ao constituir mais um pequeno vislumbre da vivência passada deste sítio que importa preservar.
A breve visita que empreendemos, guiada pela Professora Delfina de Vilar Maior, foi motivada pelo interesse que suscitaram as gravuras rupestres recentemente publicadas por Osório e Pernadas (2011: 35-34) no último número da revista Sabucale. Ao determo-nos na observação das sondagens abertas pelos recentes trabalhos arqueológicos no local, foi possível identificar este outro motivo (fig. 1 e 2), gravado no afloramento granítico junto à Porta do castelo e relacionado com a vivência medieval desta fortificação.
Trata-se de um jogo, designado como «alquerque de nove». Derivado do árabe, «pedra pequena», o alquerque, diz respeito a uma família de jogos, diferentes entre si, mas que têm em comum a utilização, como fichas, de pequenas pedras ou inclusivamente fragmentos de cerâmica afeiçoados, que os jogadores movem ao longo das linhas marcadas.
O alquerque de nove, em concreto, remonta a sua origem à Antiguidade, sendo um dos passatempos favoritos dos soldados romanos, o ludus latrunculi, o que irá favorecer muitíssimo a sua difusão por todo o território europeu. Este tipo de jogos parece adquirir, porém, ainda mais popularidade durante a Idade Média (fig. 3), sendo gravados em praticamente todos os lugares onde o ócio o permitia.
Trata-se de um jogo de estratégia, ainda hoje com muitos adeptos e que encontramos mesmo em várias versões digitais on-line, sendo, por exemplo, conhecido em Espanha, Itália e Alemanha, como «jogo do moinho», em França por «marelles de neuf» e em Inglaterra, como «nine men’s morris». Cada jogador dispõe de nove peças e em cada jogada, coloca uma delas em qualquer ponto de intersecção vazio, com o objectivo de conseguir colocar três das suas peças em linha, ao mesmo tempo que deve evitar que o adversário consiga fazer o mesmo. Quando um jogador coloca três peças em linha, faz um «moinho» e adquire o direito de retirar uma peça ao adversário, impedindo-o assim de fazer a sua própria linha. Quando um jogador reduz o adversário a duas peças e consegue bloqueá-lo, ganha o jogo.
São numerosos os exemplos, semelhantes aos de Vilar Maior, gravados tanto em castelos e fortalezas medievais – como o Castelo de Mogueira, em Resende, onde se reconhecem inclusivamente dois conjuntos de covinhas, respectivamente de sete e de nove, seguramente destinadas à colocação das fichas de jogo (fig. 4) (Correia Santos, in prensa) o Monte Lobería, em Vilanova de Arousa, Pontevedra ou o Castelo da Raiña Loba, em Santiago de Covas, Ourense (fig. 5) –, como em edifícios religiosos, geralmente situados nas bancadas adossadas aos muros laterais, mais afastados do altar (Costas Goberna & Hidalgo Cuñarro, 1997: 32-37), aparentemente como forma de entretenimento enquanto se esperava o início da missa (fig. 6). Um dos exemplos mais paradigmáticos em território português será o claustro da igreja de Santa Maria de Oliveira de Guimarães, actualmente convertida no Museu Nacional Alberto Sampaio, com um total de 15 tabuleiros gravados.
Pelo que foi permitido observar poderemos acreditar que as escavações realizadas em Vilar Maior poderão trazer ao nosso conhecimento outros vestígios de importância relevante, sendo de todo o interesse cientifico, cultural e concelhio, dar a conhecer à comunidade, preservar e acautelar as descobertas que venham a ocorrer.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Correia Santos, in prensa:
Correia Santos, M. J. (in prensa) “ La arqueología, lo real y el imaginário: el caso del santuario rupestre de Mogueira”, Madrider Mitteilungen, 52
Costas Goberna, Hidalgo Cuñarro, 1997:
Costas Goberna, F. J., Hidalgo Cuñarro, J. M. (1997) Los juegos de tablero en Galicia. Aproximación a los juegos sobre tableros en piedra desde la antigüedad clásica hasta el medievo, Artes Gráficas Vicus, S.L. Vigo
Fernández Ibáñez, Seara Carballo, 1997:
Fernández Ibáñez, C., Seara Carballo, A. (1997) “Un “tablero de juego de época medieval grabado en “O Castelo da Raiña Loba” (Ourense)”, Castrelos, Museo Municipal “Quiñones de León” de Vigo, tomo 9-10 (1996-97), pp. 149-160
García Morengos, 1977:
García Morengos, P. (1977) Libro de ajedrex, dados y tablas de Alfonso X el Sabio, Publicaciones de Patrimonio Nacional, Madrid
Osório, Pernadas, 2011: http://coimbra.academia.edu/MarcosOsorio/Papers/1100543/Gravura_rupestre_em_rochedo_defronte_do_castelo_de_Vilar_Maior._Sabucale._3._Sabugal._2011_p._25-34
Maria João Correia Santos (Instituto Arqueológico Alemão)

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