Fim do século XIX na aldeia. Esta é uma história violenta, de bolinha vermelha ao canto do ecrã. Depois de muitas perguntas, muitas dúvidas tiradas com os mais velhos, depois de muitas contas de geração em geração para trás, apurei datas, factos e algum imaginário do Casteleiro de há cento e tal anos. De certeza antes da República.

Como saberá, nos últimos vinte anos antes da implantação da República, houve muita convulsão social em Portugal.
O Casteleiro não escapou a essa situação. Eis um caso sério disso mesmo.
Havia duas facções na aldeia, como em todo o País, pelos vistos: monárquicos de um lado, republicanos do outro. Essa era a regra da cartilha. Mas na minha aldeia, com honestidade, depois de muita conversa com os mais idosos e de muita comparação de dados, não posso afirmar que assim tenha sido. Acho que eram todos monárquicos, como demonstro adiante, embora rivais por outras razões que não essas do alinhamento político em que estamos treinados por toda a escola.
Os chefes de facção (de partido?) eram o Calheiros e o Guerra: de um lado, o sr. Calheiros (julgo que este é que era o Conde Calheiros, título verdadeiro ou não, de que ouvia falar em criança) e o seu filho é que chefiavam o seu partido; do outro, o sr. Manuel José e o ti’ Jaquim Cameira.
Todos monárquicos, julgo. Mas aqui, peço a ajuda do leitor informado. É que, pelo que sei, a família Guerra era monárquica. E como é que o Conde (?) Calheiros ia ser outra coisa? Mas vá lá: admitamos que uns eram republicanos e outros monárquicos… Só que isto não vai lá por manuais: ultrapassa os manuais e os estereótipos…
E já agora repare no tal valor das palavras no linguajar do Povo – deixo aí de propósito o tratamento popular: um, o mais rico, é «senhor» Fulano, o outro, o menos rico, é ti’ (= tio) Beltrano.
A família Calheiros desapareceu toda de repente: a tuberculose não deixou ninguém.
A casa onde a família habitava fora construída no século XVIII: uma boa e ampla construção de granito, muito próxima da igreja.
A família do sr. Manuel José Guerra vivia «em frente», mas pelas traseiras dessa Casa, no edifício mais hoje designado como o «Centro». Mais tarde mudaram-se para a «Quinta». O filho, o Dr. Guerra e a nora, D. Maria do Céu, não tiveram filhos. A fortuna foi sempre gerida pelo Sr. João Rosa.

A campanha foi violenta
Voltando à história da campanha partidária forte: decorria a campanha eleitoral para os deputados da Nação. Conto como ouvi. Tradição oral, portanto. Estaremos no final da década de 1890 ou mesmo nos primeiros anos de 1900. Esta foi uma campanha violenta.
Parece que o episódio que aqui trago foi sempre só meio cochichado, dadas as consequências trágicas que teve.
O filho do sr. Calheiros queria meter os adversários em casa e dominar a rua.
Para tanto, usava apenas isto: uma barra de ferro pesada. O alvo: as cabeças dos adversários políticos.
Uma noite, numa ruela que é mais um beco estreito, a Rua dos Cardadores, altas horas, o ti’ Jaquim Cameira foi agredido com a barra de ferro pelo Calheiros jovem. Mas as coisas correram mal para o lado do Calheiros: o ti’ Jaquim Cameira era possante (como, aliás, o filho, o ti’ António Joaquim Cameira, que, quando se passeava na aldeia imponente no seu cavalo alto, metia todo o respeito do mundo: a miudagem ficava mesmo embasbacada com a cena).
Com a mesma barra de ferro, que lhe tirou das mãos – os dois absolutamente sozinhos na noite escura como breu numa aldeia que dormia dos trabalhos do campo e se preparava para novo dia de labuta muito dura – «deu-lhe umas cacetadas valentes», como se contava na família com orgulho. Mas o resultado foi fatídico: o jovem Calheiros esteve uns meses doente, de cama até, e acabaria por morrer disso. A sorte do ti’ Jaquim Cameira é que não havia viv’alma na rua, não houve testemunhas e tudo não passou de um susto na família…
Hoje, mesmo sem sabermos desta e de outras histórias, nós somos os herdeiros deste Casteleiro de sempre – certo?
Note que daí por 70 ou 75 anos, nas campanhas de 1975 e 76, houve na minha terra muito debate e muita garra – mas nunca nada que se pareça com agressões físicas e menos ainda com mortes… Felizmente!

Nota pessoal
O acima referido ti’ Jaquim Cameira (pai do ti’ António Joaquim Cameira), era tio-avô da minha mãe (meu tio-bisavô, portanto). Mas já não o conheci: só ao filho, um homem imponente, de facto, sempre montado no seu cavalo.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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