Nunca fui como a cepa e o carvalho, que se pegam à terra, pois sentia o gosto façanhudo de correr o mundo à cata de aventura. Ao invés de cavar leiras ou guardar pastorias, como os mais pacatos, preferia lançar-me de fardo no costado a caminho de Espanha ou sair com o macho carregado de fazenda à cata de negócio por feiras e romarias.

Por vezes armavam-se desacatos. Um que puxa outro que deixa, e logo alguém sacava da naifa, zunia o cajado ou apelazava um calhau. Quanto a mim, meus amigos, se me soasse zoeira ou me fairasse pancadaria era certo estar lá batido, disposto a tudo. Chalaças não eram comigo, e ai daquele que me lançasse desafio.
As gentes sabiam-me justo, honrado, pacato e até simplório, mas o dianho era se houvesse escarcéu onde a minha honra, ou a de algum justo, fosse atirada à lama. Por mor de tal feitio fiz amigos e inimigos mas, há que dizê-lo, os primeiros foram mais em barda.
Até dentro de portas me metia em alhadas e aqui nem sempre as coisas corriam pelo melhor, que santos da casa, como soi dizer-se, nunca fizeram milagres.
Uma noite, em final de Verão, dormia a sono solto, estirado na enxerga e arredado da mulher, por mor do calor, quando acordei assarapantado com alta vozearia.
– Que soa, home? – perguntou-me a Belmira, também ela atordoada.
– Alguém corre as ruas do povo a armar escarcéu – disse-lhe.
Gritos, assobios, bater de tamancos, acompanhavam o roncar desatinado de um armónio. Parecia o tropear de um pelotão de desordeiros, desafiando as pobres almas da aldeia.
Pelo zoar percebi que eram os rapazes da Nave, em regresso de Vilar Maior, da festa do Senhor dos Aflitos, já bem tomados do briol.
«Esperai que já as tomais, gabirus!», pensei, ao mesmo tempo que me ergui de um impo.
– Vê lá ao que vais, cabo dos trabalhos… – disse-me a mulher, que me conhecia o génio.
Desci ao curral, onde lancei mão a um tanganho, e segui colado às paredes, tocadas pela sombra do luar.
A rapaziada assentara arraiais no adro, onde continuava cantando e bailando com estardalhaço. Na rua não topei vivalma. Seria de crer que a gente da terra se acobardava com a presença daquela súcia de pelintras? Entrei, pé ante pé, no curral do Zé Marra, à procurar reforço. Havia que incitar o povo a reagir à afronta, cair-lhes em riba e corrê-los a toque de caixa. Subi a escaleira do balcão e bati de leve na porta de castanho. De dentro tudo permaneceu mudo e quedo. Insisti:
– Ó Marra! Sou eu, o Tosca. Temos de correr com a canzoada que nos tomou o povo!
Soaram passadas. Dentro da casa soltaram a tranca e o Marra assomou-se pela fresta da porta entreaberta:
– Isto são horas de vir a casa de um cristão tirá-lo de seus cuidados?
– Ora essa, estapor! Mais cagaceira fazem os da Nave, que romperam pelas ruas a fazer escárnio da gente. Temos que os enxotar!
– Ora, deixa-os palrar. Vêm do Senhor dos Aflitos já toldados do vinho. Não os descuides que depressa seguem. Têm mais de uma légua a palmilhar.
– Conho! – exclamei, irado com a calma do meu patrício – É por estas e outras que ninguém nos guarda respeito. Home! Eles que toquem a gaita na Nave, que aqui ainda há quem mande.
Mas o desaconsuado cerrou-me a porta!
A honra obrigava-me a não desistir de espantar a corja e maluquei um plano para ensandecer a aldeia contra os atrevidos. Encostado novamente às paredes, e com cautelas redobradas, aproximei-me do adro. Tombei-me junto a uma quina, e mirei a malta que continuava a divertir-se cantando e cambaleando pelo largo ao ritmo do armónio. Só tinha de alcançar a igreja e trepar ao campanário para tocar o sino a rebate, de modo a que todo o povoado se pusesse de alevanto. O raio era chegar lá, que o maldito do tocador se sentara ao fundo da escaleira. Mas não tardou que botassem as trouxas às costas e arremetessem para mais uma ronda. Ergui-me, atravessei o largo numa carreira, e trepei a toda a brida ao alto da torre sineira. Lá chegado mandei o gadanho à corda do sino e puxei com força, disposto a bater fortes sinadas. Mas, para minha surpresa, não soaram mais que baques surdos!
Cheguei-me ao sino… Filhos da mãe! Tinham substituído o badalo por um nabo. Fiquei preado, quase disposto a romper eu só, de cajado ao alto, contra os malditos.
Do alto mirei as silhuetas da rapaziada dando a volta ao povo e depois tomando o caminho da Nave. Ainda mal refeito, regressei a casa e à enxerga, carregando a vergonha de ter sido herói de espavento.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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