Já sabem os meus caros que a vida que levei foi a de arriscar o coiro no contrabando e esfalfar a saúde calcorreando a todo o tempo os povos em redondo comerciando as mercancias. E não é vergonha dizê-lo, porque se a ventura me estava no tutano, também tinha de acarear sustento para as muitas bocas que tinha em casa.

Cuidar das parcas terras que meu pai e meu sogro me deixaram era obrigação para a mulher e os filhos, embora não negasse dar uma ajuda, o que sobretudo sucedia aquando das tarefas de maior e mais cansativa azáfama.
Arrecadava ao redor de 20 alqueires de centeio, que me garantiam fartura de pão de portas adentro. Mas para o cereal vir parar à arca da loja tinham que se executar as rudes tarefas da ceifa, acarranja e malha, nas quais dava o meu contributo, especialmente no torna-dia, que era a paga, em trabalho, a quem nos ajudava.
Numa dessas ocasiões, fui ajudar à malha da senhora Marquinhas, uma morgada cá da terra, que era mulher bondosa e bem merecia o favor de todos. Tive que me agarrar ao mangual e emparceirar com a rapaziada nova numa das alas a zupar no centeio. Demos-lhe forte, em continuada compita, não me ficando atrás da malta solteira, que me julgava um osso bom de roer.
De manhã cedo, à desjua, bebemos gemada e metemos no fole uma mastiga de pão com chouriça. Ao almoço emborcámos uma malga de sopa e um naco de pão com queijo de cabra curado. A meio da manhã parámos para o cravelo, comendo pão com chouriça e presunto. Durante o manejo do mangual, ao fim de cada eirada, derrubávamos um cântaro de vinho, do verdasco da senhora Marquinhas, que saltava aos olhos em sinal de maravilhosa pinga.
Quando o sol ficou a pino, quedámos para a janta. A patroa estendeu uma toalha de linho por riba de duas fachas de palha e ali dispôs as maravilhas da sua culinária. Serviu-nos com todo o esmero, por lá demasiado, face à hoste de labregos que ali tinha, pois o que queríamos era encher o odre para satisfazer a gana e recuperarmos as forças para o resto da traifa. Veio um tacho de borrego guisado com soberbo aroma, que nos fez crescer a larica. Para acompanhar o borrego requeriam-se batatas cozidas, das farinhentas, para embeber o molho bem apurado do guisado. Mas a senhora Marquinhas, que tinha o maldito gosto de surpreender, apresentou um tacho de arroz alvo como a estriga.
– Aqui têm um arrozinho branco de manteiga para acompanhar o borreguinho – disse-nos com a sua vozinha meiga ao destapar o tacho.
Trocámos olhares de estranheza, pois naquele tempo não éramos dados ao arroz, ainda para mais assim da cor da cal, parecendo o arroz-doce de uma boda. Tive que ser eu a dar voz à insatisfação.
– Ó senhora Marquinhas, não me leve a mal nem veja desfeita na minha niquitrena, mas antes quero acompanhar o borrego com fatigas de pão do que emborcar esse arroz deslavado e da cor do linho.
– Ora essa, senhor José Tosca, cozinhei-o com toda a condesilha, não me diga que lhe desagrada, se ainda nem o provou.
Tive de lhe explicar com paleio mais frontal.
– O ponto é que só gosto de arroz sujo, do que tem ciscos e algueiros.
– Meta lá uma garfada à boca e verá que está divinal – sugeriu-me a morgada face às minhas considerações.
– Pois da minha parte antes lhe rogo uma fatiga de centeio, que esse arroz esbranquiçado será manjar para padres e doutores, mas não satisfaz o apetite de um malhador.
E todos se atiraram ao tacho do guisado munidos de um bom fatronco de pão, sem que ninguém botasse o garfo ao arroz de manteiga, para desânimo da morgada que se viu obrigada a recolher o tacho.
Deglutido o guisado, a patroa presenteou-nos com uma travessa de papas de carolo, que estavam muito docinhas, e num ai foram arrebanhadas pelos gulosos malhadores.
Para findar, veio à mesa improvisada um enorme e vistoso queijo fresco, que a morgada retirou do assincho, ficando a tremelicar em cima do prato. Logo alguns lhe botaram as naifas, retirando grandes pedaços que colocaram sobre fatigas de pão.
Como não toquei no queijo, a senhora Marquinhas, que em tudo reparava, deu-me novo remoque, por lá ainda pouco refeita das minhas considerações acerca do arroz branco.
– Então senhor José, não se serve de um pedaço de queijinho tenro, acabadinho de fazer?
– Olhe, senhora Morgada, eu serei algo biqueiro, mas no que toca a queijo, saiba vossemecê que só me entra no goldre o amanteigado, daquele que se esbarronda no prato do mesmo modo que uma bosta de vaca se esparralha no chão.
A mulher ficou de face rubra, parecendo subitamente irada com o meu paleio.
– Veja o senhor José como fala quando os mais estão à mesa!
Como não era homem de lérias, pedi licença, levantei-me e abandonei a malha. Seria labrego e tipo de poucos e maus cuidados no trato e sem maneiras, mas tenho cá o meu orgulho e o meu modo de ver o mundo.
Decidi nada querer daí em diante com gente fidalga, dessa que não gosta das falas e da maneira de viver da gente do povo. E já agora, no que respeita a comidas, saibam que sou ainda fiel à tradição antiga e não me entram no bucho os comeres modernos que agora por aí se servem nas casas de pasto.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

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