Cultivo, desde garoto, este gosto, aparentemente alheado, de ver cair a chuva, de a acompanhar no seu encontro com o mundo, com as casas, as árvores e os solos. Gosto de lhes seguir o caminho por valetas e regueiros, de assistir à formação dos charcos, de observar o escorregar das gotas em desenhos rendilhados nos vidros das janelas.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Vejo-me, frequentemente, espreitando a chuva, insinuando, perante mim próprio, que a não quero pelo incómodo mas, desejando-a num desejo íntimo, na esperança de um secreto prazer.
Aqui, no nosso Interior, somos da chuva que molha e encharca, somos do frio que a enrijece, que a solidifica, que a branqueia, somos do vento que a empurra e eu sou dos que, secretamente, amam a chuva!
Gosto de sair à rua, ainda que chova, e corro como se a chuva corresse atrás de mim. Ainda que me molhe o corpo e este me estremeça em arrepios de frio e humidade confesso que, mesmo assim, a chuva não me desgosta. Se for muita procuro abrigo como quem procura refugio. Depois de homiziado, observo e vaticino quantidades, oportunidades e friezas.
Entrando em casa gosto de lançar olhares pela janela e de iniciar o prazer de uma contemplação superficial mas demorada. São olhares que me instruem o espírito. Não me importo, portanto, de demorar os meus olhos pelas imagens da chuva tão sedutoras e tão naturais. E, se for final de tarde, se o início da noite se mantiver tempestuoso posso não ousar sair para enfrentar ventos ou tempestades e optar por apenas escutar, por apenas observar. Gosto de apreciar discreta mas interessadamente a chuva. Se a escuridão da noite me impedir de a ver, ouvir-lhe-ei o cantar tamborilado e escutar-lhe-ei o correr escorregadio. Pressentir-lhe-ei o desejo de me visitar tentando entrar pelo telhado ou insistindo contra a janela transparente e impeditiva.
Assim me fala a chuva, lá de fora, a mim que já estou de dentro!
É nessa altura que ela me surge mais enigmática. Tento, então, adivinhar-lhe os locais de longínqua origem, os sítios onde se formaram as nuvens. Imagino o final dos regatos, o desaguar das ribeiras, o chegar das águas aos grandes rios que enchem o infindável mar.
Para mim o mar é feito de muita chuva e sempre será infinito, sempre será longínquo ainda que alguma vez esteja próximo.
Mesmo que visto e revisto o mar será sempre da minha imaginação e sempre será misterioso.
E é, lá, no mar, que a chuva descansa!
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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