Antes queria andar só correndo os caminhos de Deus que fazê-lo com má carava. Mas como vivemos em súcia e havia basta gente a andarilhar pelas estradas, sucedia-me ir muitas vezes acompanhado, ainda que nada o desejasse.

Um desses meus parceiros de ocasião era o Manuel Porro, de Aldeia da Dona, que comerciava em tamancos e albarcas de seu próprio fabrico. Era homem latagão, alto que nem uma torre sineira, com gâmbias longas que lhe permitiam, de uma só passada, avançar maior porção de terreno do que eu fazia com dois passos. Era o cabo dos trabalhos acompanhá-lo caminhando, sendo quase necessário galgar para não o perder de vista. Algumas vezes, cansado da correria, desculpei-me em ir dar de corpo atrás de um barroco fronteiro ao caminho, para o deixar ir adiante e assim o perder de vista.
Pois de uma vez, em dia chuvoso, em que tornava de Pinhel, da Feira dos Santos, seguindo por um caminho lamacento, fui alcançado pelo Manuel Porro quando já estava perto da Parada. Vindo no seu andar rézio, como um toiro desgovernado, ainda me desviei para o deixar passar, mas o homem, depois de me dar a salvação, refreou o passo e dispôs-se a seguir na minha carava. Trazia de rédea, como sempre, o seu burreco preto, chamado Moreno, que era um jerico patarreco, mas desalmado para andarilhar, tal qual o dono.
– Então como correu o negócio? – perguntou-me.
– Menos mal, ainda que retorne com boa parte da fazenda.
– Pois amigo, a mim há muito que uma feira não me corria de feição como a de hoje. Vendi quase tudo a bom preço e uns pares de tamancos que me restaram ainda os deixei ao desbarato.
– Não tive tanta sorte, pois torno com o macho carregado.
– O Moreno vai folgado. Não quer aliviar o macho? – disse-me o Porro, mostrando-se prestável.
– Bem-haja, mas vou deixar na Cerdeira, em casa de um freguês, boa parte do que trago.
Na Cerdeira demorei-me um instante no trato com o meu freguês, e pensei que o Porro deitasse adiante. Mas o raio do rapaz não arredou pé, e ainda me ajudou a descarregar a fazenda. Seguimos depois pelo caminho na Miuzela para atravessarmos a Côa junto a Badamalos.
Chegados à ribeira demos com a água correndo a monte, cobrindo uma parte do pontão. Hesitámos na travessia, mas voltear pela ponte de Sequeiros, mais a riba, far-nos-ia perder muito tempo, e não queríamos que a noite nos surpreendesse.
Decidimos atravessar, ainda que molhando os pés na água corrente. Segui primeiro, com o macho de rédea. O animal estava avezado a superar comigo todos os perigos e foi com redobrados cuidados que passámos a parte do pontão em que a água corria desalmadamente, ainda que pouco mais cobrisse que o tornozelo.
Quando atingi a outra banda reparei no Manuel Porro, que se via e havia para encarreirar o Moreno para o pontão. Bem lhe puxava pela arreata, mas o animal parecia ter os cascos colados à terra. O Porro sovou-lhe o lombo com um arrocho e meteu-lhe o ombro à traseira, mas não havia modo de o arrancar.
– Não o force Manel, que isso dá mau resultado – berrei-lhe, a ver se o continha, pois bem sabia que ele era cabreado quando lhe dava a tineta.
– De mim este barzabenas não manga. Passa nem que seja de rojo – disse o Porro, zupando de rijo no animal.
– Eu volto a essa banda e vamos passar a ponte, seguindo depois por Valongo – gritei-lhe de novo.
Nem me respondeu, irado que estava. E tanto espadelou o animal que este se deitou parecendo morto. Para meu espanto, o Manuel Porro botou as manápulas aos atafais do burro e, recorrendo à sua força descomunal, ergueu-o como se fosse uma saca de batatas e botou-o às costas. O animal esperneou, mas o Porro, fazendo jus à fama de vergalhudo, não mais o largou, metendo pelo pontão em passo firme, sob o meu olhar de assarapantado.
Acabando a travessia, o Manuel Porro, de cara rubra pelo esforço heróico a que se sujeitara, aventou o burro ao chão lamacento e disse-lhe com ar severo:
– Podes ser mais esperto do que eu, mas não me ganhas em teima e em valentia.
E dali arrancámos em passo estugado, a ver se nos livrávamos do breu nocturno.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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