Há dias entram-me pela casa dentro uns miúdos a pedir o «Pão Por Deus». Isso fez-me lembrar que no Casteleiro, quando eu tinha a idade deles, se pedia o «Santoro» (o dia 1 de Novembro é o Dia dos Santos, de Todos os Santos, «Sanctorum», em latim – vem daí). Esse e outros momentos levaram-me a pensar nos jogos de infância. Quando era pequeno, a que jogávamos nós?

Ponho-me a olhar para trás. As imagens são muito claras, mas não muito diversificadas. Os jogos da nossa meninice eram um bocado monótonos. Mas tem piada que na altura achava-lhes piada. Deixo aqui alguns exemplos de jogos: uns masculinos, outros femininos.

Futebol
A loucura. Podia andar seis ou sete horas seguidas a jogar com a malta. Qual comer, qual quê? Sempre a abrir.

Ao pião
Jogar ao pião. Toda a gente sabe: enrolar bem a baraça, soltar o pião com muita garra e acertar no do adversário ou simplesmente deixá-lo rodopiar o «mais tempo» possível.

À chôna
Jogar à chôna (leia tchôna). Duas pedras com intervalo no meio, um pau pequeno em cima das duas, uma «belharda» (pau grande), levantar a chona e… zás: trancada na chona no ar para o mais longe possível. A distância mede-se em bilhardas.

Andar «de» arco
Assim mesmo: andar «de» arco. Esse era um desporto bem popular: uma roda feita de arame ou ferro miúdo, bem redondinha é o arco e uma gancha para impulsionar o arco – e já está… Correr com aquele «zingarelho», o mais rápido possível: era esse o objectivo.

Às escondidas
«Jogar às escondidas». Não tinha nada que saber: um de nós, à vez e conforme o resultado do jogo anterior, punha-se de «pivot», cabeça baixa sobre uma esquina de casa ou um banco do Terreiro de São Francisco. Dava o grito de guerra e os outros, ala que se faz tarde: toca a esconder por ali. Uns segundos para a operação de esconder. O «pivot» desatava logo à procura e ganhava quando os encontrasse a todos… Às vezes andava horas seguidas nisto, ali, num olival ao pé de casa!

À brôcha
(Leia: «À brôtcha»: jogar à brôtcha.)
Um coloca-se de cara escondida e de mão no rabo (palma para cima, de modo a poder ser massacrada). Os outros, um deles e só um de cada vez, vão-lhe mandando uma palmada a sério. Aleijava mesmo. Tratava-se de descobrir quem é que tinha batido, por entre os risinhos mal contidos, tanto mais fungados quanto mais dura tinha sido a palmada. Mas em geral era jogado em silêncio: para camuflar o autor da palmada…

Dos jogos femininos, lembro estes três exemplos:

A cantarinha
As miúdas punham-se todas em fila, de costas umas para as outras e iam andando e atirando para a parceira de trás um vaso (uma cantarinha: um pequeno cântaro de barro – já nem sei se com ou sem água. Mas sei que, sendo de barro, era naturalmente um objecto muito frágil que não aguentava a queda – se a houvesse –, e havia tantas…).

O anel
Põem-se todas numa roda, sentadas, mas viradas para dentro. Estendem as mãos em concha. Uma vai andando por dentro, com o anel nas mãos justapostas e passa com as suas mãos por dentro das mãos de cada uma. Num par de mãos deixou o anel. Pára. Pergunta a uma ao acaso: «Onde está o anel». Acerta, vai ela para o centro. Não acerta: a outra continua.

O lenço
Muito semelhante ao jogo do anel, também sentadas. Mas a que tem o lenço nas mãos e o vai deixar circula por fora da roda e deixa-o atrás de uma. O resto é igual.

O descanso
Um desenho de quadrados no chão, todos interligados. As jogadoras tinham de saltar de forma seguida ou interpolada – com regras que nunca foram claras para mim…

Na altura, isto divertia-nos. Pelo menos não nos lembramos de andarmos chateados. Até por falta de termo de comparação.
É hoje que, ao olhar para trás, isto me parece uma grande pasmaceira… Mas isso é agora, com as consolas, e toda esta parafernália empobrecedora de espíritos…
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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