Todos os anos botava pé na romaria da Senhora da Póvoa, a de longe, em Vale de Lobo, onde para além da festa religiosa se armava uma feira de truz. Pois foi lá que uma vez tive mau encontro com o Três Pêlos, esse trangolas de focinho de rato, que mugia a todo o tempo: «cheguem-se à roda, a ver quem atina na vermelhinha!».

Postava-se por detrás de uma bancada, com o tronco de esguelha, pois era manco. Sobre o pano de linho que cobria o mesente estavam deborcados três canecos de latão. Trocava-os de posição com uma incrível rapidez, levantando de vez em quando um deles, a deixar topar um botão vermelho.
A populaça que serigaitava pela feira ia quedando em torno do Três Pêlos, matando a curiosidade.
– Atão, quem aposta? É só atinar! – desafiava o manco.
Alguns afoitaram-se e entraram na jogatana, perdendo e ganhando, enquanto engrossava o cordão de gente que envolvia a banca.
Pela minha parte, enxergava as mãozinhas do Três Pêlos a fazer bailar os copos em riba da banca, a ver se lhe apanhava o manejo. Não era parvo, o homem. Começava por apostar fraco, para cativar, e dava duas reviravoltas aos canecos pedindo depois ao apostador que indicasse qual deles escondia a marca. Adivinhava e, enredado, continuava o jogo, até que o Três Pêlos lhes dava quatro volteios, trocando os olhos ao freguês. Agora atinar era uma sorte.
Fui-lhe tomando o maneirar e matutando se valeria a pena entrar no engrimanço. Mas o patarreco, ao topar a minha prolongada presença, dirigiu-se-me em voz altaneira:
– E vomecê, tio?… Não entra na brinca?
Apanhado de surpresa e sentindo-me olhado pela turba, tive que me afoitar.
– Atão pois!… Só esperava vez.
– Quanto aposta?
– Cinco tostões, pra começar…
Saquei do sartum uma moeda que atirei para cima da banca.
O malabarista soergueu um dos copos, para me mostrar a posição do botão. Depois pousou as mãos sobre dois e fez-lhes uma rotação para a canha, seguida de novo movimento para a dextra. Pareceu-me fácil.
– Veja lá o do meio.
O homem ergueu-o e lá estava a vermelhinha, a sorrir.
Enfiou o gadanho numa gamela com o fundo coberto de moedas, donde sacou uma que mandou para riba da mesa.
– Aposta agora os dez? – desafiou-me.
– Botamos adiante.
Nova rabiosca e mais um palpite.
– Erga o da sua canha.
Novo ganho e outra aposta a dobrar. Voltei a atinar, para desespero do Três Pêlos, que não me conseguia ludibriar. Já ia a jogo contrariado, de face rubra, a bufar que nem um gato assanhado. E eu a apostar mais forte, senhor de mim, confiante que lhe descobrira a destreia no voltear das latas. E a choldra fazia roda embasbacada.
– Catrino! Não há modo de o enganar! – disse alguém em voz alta.
– Não me diga que desiste? – desafiava eu agora.
– Nunca! Não arreceio ir a jogo, isto é a minha vida!
– Então aposto tudo o que guardo no bolso contra o que o amigo tem na gamela.
O homem aceitou, e no poviléu levantaram-se sussurros de surpresa pela minha temeridade.
Feita a aposta o Três Pêlos curvou-se sobre o mesente, pousou as mãos no topo dos dois copos das bandas, e deu-lhe simplesmente dois volteios rápidos.
Arrelampei-me com tamanha facilidade. Mesmo assim demorei-me um gorcho no adivinhar, para criar ânsia. Apontei-lhe serenamente o copo da minha esquerda. Ele colocou-lhe a mão em riba e hesitou também um instante.
– Vá lá, home! Erga o caneco!
Levantou-o. Por debaixo estava apenas o pano de linho que cobria a mesa. Fiquei pregado ao chão, com um enorme peso no bucho. Nalguma me enganara, o bufarinheiro.
– Passe cá a bolsa do dinheiro – disse-me com ar triunfante e de escancarado riso no focinho.
Estavanado, mandei uma lambada nos outros dois copos. Os canecos rolaram e caíram no chão poeirento – o pano estava limpo, a vermelhinha desaparecera.
– Ah, futriqueiro! Pra onde sumiste o botão?
Chalaças não eram comigo, que me tinha por honrado. Fui-me a ele e assentei-lhe duas lostras na tromba que o achicaram em terra.
Dois moços de lavoura botaram-me as mãos e tolheram-me os movimentos, encostando-me a um carro de vacas. Protestei, maldizendo o malabarista, que agora se erguia ajudado por outros homens.
Em breve chegou o regedor da locanda, a tomar parte do caso. Aprumou-se à minha frente, deu ordem aos moços para me soltarem, e perguntou-me calmamente:
– Diga lá que enxêco lhe fez o manco.
– A gente que diga!… O marrano estava de mão na portinhola a fazer uma ribeira, de frente para mulheres e catraios.
O regedor, mandou um reparar de desprezo ao laburdo do Três Pêlos que, agarrado à banca, protestou.
– É mentira! É tudo aldra!… A gente que diga.
Mas a assistência ficou queda e caluda, ao que o regedor decidiu:
– Pode ir à vida, homem!… Quanto a ti, Três Pêlos, andor daqui para fora antes que te arreste e te entregue à Guarda.
Estava safo, e tinha que me esgueirar dali a toda a brida. Apalpei o bolso, à cata da saqueta do dinheiro e, em rápido voltear por entre as tendas, pus-me ao fresco, tomando a firme decisão de não voltar a jogar à vermelhinha.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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