Tanto o conceito de comédia como o de tragédia são gregos. Não pretendendo ser esta crónica uma análise dos conceitos, deixo aqui alguns elementos para que se possa entender o cenário e a peça.

A comédia era uma peça teatral da Grécia antiga, estava voltada para cenas do quotidiano, os costumes são vistos de uma forma satírica e de crítica. E desta forma, cómica, engraçada. A tragédia, também peça teatral, está centrada na vida de um herói que luta contra um factor transcendental, que vai controlando os acontecimentos, no final, o herói, sofrerá as consequências por enfrentar o destino (Fado). Os actores usavam máscaras (as personas). Realizavam-se em honra do deus Dionísio (para os gregos, Baco, para os romanos), o deus do vinho, da alegria e do teatro. Importa referir que a reacção dos espectadores é diferente perante cada uma das peças. Aristóteles referencia a catarse (purgação, neste caso, de emoções, espécie de purificação através do sofrimento alheio) na tragédia.
Ora bem, por estes dias tem decorrido um frenesim pela Europa – principalmente para o directório franco-alemão – devido à situação financeira da Grécia. Primeiro, com a decisão de perdoar parte da divida grega. Uma decisão arrancada a ferros! Principalmente, porque a grande dívida grega é aos bancos alemães e franceses. Daí o sistemático «ménage a deux» da senhora Merkel e do senhor Sarkozy!
Neste drama (ou trama?!) a que vimos assistindo desde há uns tempos largos na Europa, encontramos de forma bem definida estes dois estilos de representação. Está lá tudo!
A Grécia pôs em cena, de forma magistral, uma comédia. Nunca cumpriu os seus compromissos com a Europa. E, agora, para que a comédia fique mais satírica, lança para o palco um referendo! Modelo que permite, de forma directa, consultar o povo (este povo que todos esgrimem defender) e logo entra em pânico a nomenklatura europeia! O referendo é a forma mais pura de uma democracia. A mesma democracia que todos apregoamos como o melhor modelo político é, por ironia, invenção dos gregos! Mas os «democratas» assustam-se! Porquê? O que, provavelmente, falta explicar é por que não se fizeram referendos para a adesão a essa Europa, por que não se fizeram referendos à moeda única, por que não se fizeram referendos a todos aqueles tratados, por que não…
São as máscaras!…
Eis, então, a vez, da Europa representar o seu drama – a tragédia! Não sei qual será o herói desta tragédia, mas desconfio que é o povo, mas adivinho um final condizente com o género. Também sei qual é o factor transcendental, nada mais que a banca e os seus financeiros, que se comportam como deuses de um Olimpo obscuro.
São as máscaras!…
A nós, cabe-nos a catarse.

P.S. Diz o nosso Primeiro-Ministro que temos que empobrecer (não vejo como seja possível, pois já estamos na miséria!) para podermos recuperar. Pois eu temo que, este passo atrás, na expectativa de darmos dois em frente, não se transforme em dois passos atrás e nenhum em frente!
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

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