«A felicidade é a compreensão lógica do mundo» (Spinoza).

Vou tentar que esta crónica seja um mero exercício de lógica. A lógica é um ramo da filosofia que trata das regras de bem pensar. È um instrumento do pensar. Assim, um sistema lógico é um conjunto de regras e de axiomas para aferir e que procuram demonstrar formalmente o raciocínio lógico.
A ideia anda à volta da proposta do governo do Orçamento de Estado (OE). Aviso, desde já, que não me interessam as cores políticas para este exercício!
Ora, segundo as afirmações do governo, foi descoberto (ou existe) um buraco (reparem, é sempre um buraco, nunca um poço! É que estes ainda podem ter petróleo ou água, os buracos só têm… buracos!) de três mil milhões! Estes, a somar a outros buracos, dá um número, que não se sabe ao certo, de buracos e ainda nem somei o buraco da Madeira!!
O governo, para tapar um buraco, provisoriamente, retêm metade do subsidio de Natal aos funcionários públicos. Mil milhões. Nesse mesmo dia, o governo passava um cheque ao BPN dos amigos do Sr. Silva, que, por acaso, é Presidente da República, de… mil milhões! Poderão argumentar que era um compromisso do anterior governo. Sim, mas o subsídio de Natal é um compromisso com os trabalhadores! Porquê cumprir um e não outro?
Sigamos o raciocínio, 50% de subsídio = a mil milhões, 100% de subsídio = a dois mil milhões. Com o anúncio do governo de reter o subsídio de Natal e de férias durante dois anos, portando, 100% x 4 = a oito mil milhões! Neste anúncio, o governo até já prevê um buraco em 2013! Não sabe de onde, não sabe porquê, mas sabe de um buraco para daqui a dois anos!!! E lá vamos nós a pagar o buraco do Sr. Jardim!!!
É que, este OE, parece apresentar somente como grande vector de cortar nas despesas esta magnânime ideia: corta-se nos salários dos trabalhadores e retira-se-lhe o subsídio de Natal e de férias. A todos? Não. Só alguns. Porque as reformas vitalícias… dos políticos, não se toca! Coitados, eles ganharam tão pouco e ganham tão pouco… Pois foram estes mesmos políticos que assinaram e construíram esta situação!
Mas voltemos à lógica! Se, menos poder de compra, menos consumo. Menos consumo, logo, menos negócio. Menos negócio, menos produção. Menos produção, logo, maior desemprego! Maior desemprego, mais subsídio de desemprego, menor receita fiscal. Menor receita fiscal, logo aumento de impostos. Aumento de imposto… é a velha história da pescadinha de rabo na boca!
Mas analisemos um pouco mais a pobreza deste OE. Não por ser de austeridade. Mas por não trazer uma única ideia para o pais! Resume-se a cortes e aumentos. Nem uma estratégia para o país, nenhum investimento e, contudo, consegue manter toda a nomenklatura existente. Seria importante que fosse apresentado um plano para dar aos portugueses uma esperança, que mais não fosse!, de que os sacrifícios são necessários mas não em vão. Por exemplo, seria uma excelente oportunidade para olhar para o interior. Incentivando as pessoas e as empresas a instalarem-se no interior, através de benesses e benefícios. Tentando equilibrar o país.
Apetece dizer que, para tomarem estas decisões e, restringidos às directrizes da troika, pergunto, para quê um governo com tanta gente? Não chegariam, vamos lá, quatro, para poderem jogar uma sueca, ministros? Para quê tanta gente na Assembleia? Não seria um bom sinal, começar a poupar por aí?!… Mas isto seria a lógica.. E aquilo que vejo é, precisamente, a ausência de lógica. Como pode haver lógica, se chamamos para resolver o problema os mesmos que o causaram?! Como pode haver lógica, quando os prazos que nos são colocados para o pagamento de dívidas, para a resolução das reformas, é completamente irrealista?! Como pode haver lógica, quando queremos ovos, mas matamos a galinha?!
É a troika, respondem-me. E, é aqui que falta novamente a lógica, precisávamos de um primeiro-ministro que fosse diplomata, e temos um primeiro-ministro que não passa de um secretário-geral da troika. É alógica, ou falta dela.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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