Proponho hoje e nos próximos domingos aos leitores do «Capeia Arraiana» uma sequência de crónicas sobre viagens com História.

Basílica de São Pedro, Vaticano
Tecto da Capela Sistina, Vaticano «Juízo Final», Capela Sistina, Vaticano Vista interior da cúpula da Basílica de São Pedro, Vaticano
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Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaEm finais de Agosto passei alguns dias em Roma, essa fascinante e mágica cidade, uma das «mães» espirituais da cultura ocidental (a outra é, obviamente, Atenas). Roma é uma daquelas metrópoles que tanto se ama como se detesta, com a sua cor ocre, as suas ruínas omnipresentes, as suas 900 igrejas, as suas praças e pracetas com cafés centenários, as suas fontes barrocas e os seus bairros populares. Existe a Roma das ruas elegantes, como a Via Veneto ou a Via dei Condotti, que resplandecem com Valentino, Versace, Prada, Gucci, Armani e «tutti quanti». E a Roma boémia, da Piazza Navona, das escadarias da Piazza di Spagna e dos pequenos restaurantes e botequins de Trastevere. Ou ainda a Roma milionária das luxuriantes mansões da Villa Borghese.
Roma é uma cidade onde vamos e regressamos como se fosse a primeira vez. E depois, há o Vaticano, S. Pedro, a Capela Sistina… A basílica impressiona pela sua grandeza, o seu esplendor e, sobretudo, devido ao peso quase mítico do seu significado na cultura cristã. A visão que se tem a partir da nave central, com o enorme baldaquino de Bernini em frente e, por cima, a imponente cúpula de Miguel Ângelo, é esmagadora e sublime. Trata-se de uma obra tão magnífica e grandiosa que nem nos lembramos de perguntar se teria sido levantada para glorificação de Deus ou para satisfação da vaidade humana. Mas a verdade é que o corrupio de turistas e a vendilhagem que lhe anda associada privam o crente do silêncio e do recolhimento necessários aos locais de fé.
Outro lugar de magia e encanto é o Museu do Vaticano. Percorrem-se salas, galerias e jardins com a avidez e o espanto de quem descobre continuamente, numa sequência alucinante, obras míticas, que conhecemos perfeitamente dos livros mas que quase não imaginávamos reais: o Apolo de Belvedere, o Laocoonte, o Perseu; as Stanze de Rafael e tantas, tantas outras obras deslumbrantes, que nos deixam quase sem respiração.
Mas é quando entramos na Capela Sistina que ficamos em êxtase. Diz-se que Miguel Ângelo, quando viu pela primeira vez as famosas portas do Baptistério de Florença, da autoria de Lorenzo Ghiberti, teria exclamado: «Mereciam ser as Portas do Paraíso!». E ainda hoje são assim chamadas. Pois bem: a Capela Sistina parece o próprio Paraíso. Agora que os frescos do tecto e da parede frontal foram restaurados, a Capela, finalmente livre de andaimes e de restrições, devidamente climatizada, provoca em nós uma sensação de indescritível deslumbramento. Fica-se por longos minutos de olhos pregados no tecto e a boca aberta de espanto! O restauro devolveu à pintura de Miguel Ângelo as suas cores originais, limpando-a da sujidade acumulada ao longo de séculos. Há quem diga que preferia os frescos anteriores ao restauro, cobertos pela patine do tempo. Na verdade, «o tempo, esse grande escultor», como dizia Marguerite Yourcenar, moldou a Capela Sistina e nós habituámo-nos aos seus tons suaves e às suas fendas. Mas não era essa a obra de Miguel Ângelo. Pessoalmente, o restauro não me chocou. As cores são belíssimas, o efeito arquitectónico é impressionante e o conjunto ganhou um brilho novo. E, principalmente, a deterioração dos frescos foi travada. Michelangelo Buonarroti aprovaria o restauro. Ele, que tanto sofreu para pintar aqueles tectos, deitado de costas nos andaimes, com as tintas a pingar-lhe na cara e a afectar-lhe definitivamente a visão, ele que sofreu «a agonia e o êxtase» entre as quatro paredes desta Capela, certamente ficou satisfeito por lhe salvarem uma das suas obras-primas.
Miguel Ângelo nasceu em 1475, tendo feito a aprendizagem das artes em Florença, com o pintor Ghirlandaio. Apenas com 15 anos, começou a frequentar os jardins dos Médicis, onde Lourenço o Magnífico tinha reunido numerosas estátuas gregas e romanas. Aos 25 esculpiu uma das suas peças mais famosas, a «Pietá». Pouco depois, com 26, realizou o «David», uma estátua monumental de quase 4,5 m de altura. Por sua vez, o «Moisés», esculpido para o monumento funerário do papa Júlio II, na sua poderosa musculatura e no seu aspecto de ira contida, reflecte bem a própria personalidade de Miguel Ângelo, dado ao pessimismo e de trato difícil. Em 1508, quando o grande escultor tinha 33 anos, o papa Júlio II pediu-lhe que pintasse a abóbada da capela construída no Vaticano por Sisto IV – a Capela Sistina. O artista recusou o encargo, dizendo que não era pintor, era escultor. A personalidade igualmente forte e autoritária de Júlio II acabaria por se impor a Miguel Ângelo que, pressionado insistentemente, cedeu.
A obra a que Miguel Ângelo meteu ombros era algo de grandioso. Simulou uma estrutura arquitectónica, dividindo o tecto em espaços rectangulares, nos quais pintou cenas bíblicas – Criação do Sol e da Lua, Criação de Adão e de Eva, Expulsão do Paraíso, Dilúvio, etc. A mais conhecida destas cenas é a da Criação do Homem, com o dedo de Deus transmitindo o «sopro vital» a Adão. Lateralmente, entre os arcos fingidos, Miguel Ângelo dispôs profetas e sibilas. Esta obra ocupou o pintor-escultor durante 5 anos, deitado em andaimes situados a 25 metros de altura.
Por sua vez, o «Juízo Final», que se encontra na parede frontal da Capela, apenas seria pintado por Miguel Ângelo muitos anos mais tarde, entre 1535 e 1541. Trata-se de uma enorme composição unitária, com cerca de 400 personagens. Ao centro, um Cristo triunfante, robusto como um atleta, perdoa com a mão esquerda, num gesto suavíssimo, ao mesmo tempo que, num gesto terrível, castiga com a mão direita. Os justos são içados ao Céu, enquanto os pecadores são precipitados nos eternos sofrimentos do Inferno. O Juízo Final situa-se já numa fase de transição maneirista, no conjunto da obra de Miguel Ângelo. Ao contrário de outros artistas, Miguel Ângelo, que viveu uma longa e fecunda vida de quase 90 anos, evoluiu continuamente. Iniciando a sua carreira artística no quattrocento florentino, foi ainda um dos precursores do barroco italiano.
Na Capela Sistina, Miguel Ângelo pintou dezenas de nus, sem complexos nem preconceitos puritanos. O corpo humano, tal como sucedia na Antiguidade, era visto no Renascimento como um objecto de beleza: como um cavalo, uma ave, ou uma flor. No entanto, o conservadorismo moralista não via com bons olhos que, num local sagrado, santos e santas, justos e pecadores, estivessem gloriosamente nus. Em 1563, o Concílio de Trento proibiu os nus nos locais do culto. A morte (em 1564) poupou a Miguel Ângelo uma grande humilhação: em 1565, o «pintor» Daniele da Volterra, por decisão papal, tapou pudicamente as zonas corporais mais sensíveis, colocando uma espécie de «fraldas» aos santos e santas.
O restauro levantou um problema: deixar ficar as «fraldas» ou retirá-las? Os responsáveis decidiram retirar a maior parte e deixar ficar algumas, como testemunho do moralismo contra-reformista.
O restauro da abóbada decorreu entre 1980 e 1994. O do Juízo Final, iniciado em 1990, ficou concluído apenas nos meados de 1994. Agora, o leitor, se puder, vá a Roma. Aproveite o Outono, em que não há muita gente e Roma está ainda mais bela, e deslumbre-se naquela que é uma das grandes maravilhas da arte de todos os tempos: a Capela Sistina. E sinta, se puder, o êxtase de quem observa com sensibilidade, deixando-se emocionar por uma das sensações mais elevadas do espírito humano: o sentimento estético.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

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