Se é verdade que não me considerava abastado, também é certo que lá em casa mulher e filhos não andavam à míngua. Havia fartura de batatas para cozer no panelo e de pão para migar o caldo, graças a Deus, e até tinha no chiqueiro um marrano já bem cevado e quase pronto a ir à faca.

Mas, em verdade, não me podia descuidar nos afazeres da vida, que a riqueza era pouca e a precisão não dava tempo para me estirar a descansar. Ia amontoando na saleta peças de fazenda que trazia de Espanha, noite após noite, e que depois vendia por feiras e mercados.
Pois vou contar uma parte que me sucedeu quando regressava da raia, já noite bem pegada, na carava do Manel Serôdio e do Tó Maltês, também eles experimentados nas lides da candonga. Vindos de Albergaria, fomos forçados a passar, azangados com os carregos, nas veigas da ribeira de Alfaiates, ao redor da Rebolosa. Íamos em lento caminhar, encarreirados a uma fileira de salgueiros, que nos protegia do luar, quando se me chegou à perna o Tó Maltês:
– Eh Zé! Não te soa uma concertina?
Fiquei de orelha fita, à cata do ruído.
– É além no povo. Terão armado bailarico no terreiro, – disse-lhe.
– E se por lá formos dar uma curva? Emborcamos um gorcho e damos um mordo. Já me galreia o bucho e trago a goela seca!
Também o Serôdio se mostrou interessado nesses propósitos. Não querendo ser desmancha-prazeres, tomei o mesmo partido, pelo que escondemos as cargas debaixo do folhado de uma moita e ala, fizemo-nos ao povoado.
O adro da Rebolosa estava atulhado de gente, que alegremente bailava ao ritmo de uma desenfreada concertina ou se engalhava no paleio junto à taberna montada a um canto do arraial. Aqui o vinho corria a rodos dos tonéis arruados a uma parede. Foi para aí que nos dirigimos, embrenhando-nos no adjunto. À sede que traguíamos juntou-se a alegria de beber em ambiente festivo, pelo que nos mantivemos ao redor dos pipos, sempre de pichorro entre os dedos, à conversa com os da terra.
A dada altura, com a noite já avançada, deram-me ganas de botar um pé de dança, quando soou uma moda mais ao meu jeito. Fiz-me ao terreiro, disposto a engrontar-me ao corpo de uma cachopa. E como quando avinagrado me torno foito, logo me fiz à bela Maria Rosa, tida como a melhor manega do povo. Quando me toparam a rodopiar pelo largo, os da terra cochicharam, de mim e da pobre moça: «o raio do home, casado e pai de filhos, quer enganar a franganota!». Começou isto a correr ouvidos e, logo à segunda moda, se me chegou um rapazote, por lá pretendente à rapariga. Puxou-me pela véstia, à mesma vez que todo ele se empertigava, fazendo cara rude.
– Larga lá a moça, antes que lhe dês cabo dos pés com as topadelas dos teus cascos.
Não gostei da chalaça e, vai que não vai, arrumei-lhe um tento nas ventas. De tal força lhe cheguei que o damonho do rapaz, mesmo latagão como era, caiu redondo em terra.
Acorreram os do povo, cegos de raiva. Armou-se uma tremenda pancadaria, com os da Rebolosa de um lado e eu mais o Serôdio e o Maltês do outro. Eram às dezenas e atacavam de todas as bandas. Foi a muito custo que nos conseguimos escapulir do meio da balbúrdia, onde murros, pontapés e pauladas nos caíam como em centeio na eira. Embicámos a toda a brida para o caminho da Bismula, e raspámo-nos a sete pés, dando às de Vila Diogo.
Conseguimos algum avanço sobre os da Rebolosa, que nos vinham no encalço. Mas, esmazelados como estávamos, não conseguiríamos ir longe, pois a mastragada de gente já se aproximava em grande algazarra, expelindo urros medonhos. Se nos filassem malhavam-nos o cadáver até que o esfarelassem. Ao dobrar de uma curva disse aos meus comparças:
– Achicamo-nos à roda daquele cômoro.
Assim fizemos. Mal nos escondemos logo ouvimos passar, em grande zoeira, a turba perseguidora. Erguemo-nos depois, sãos e salvos mas de corpo dorido e amassado. Regressámos à Rebolosa e, chegados ao terreiro, demos com o baile desfeito e com a presença de apenas meia dúzia de mulheres e crianças, que se apressaram a debandar. Empunhando estadulhos, que tirámos de um carro de vacas, desatámos a zupar em tudo o que apanhámos pela frente. Abalroaram-se os tonéis do vinho e partiram-se caçoilas e copos, demoliu-se a banca da taberna e o palanque onde tocara o acordeonista.
Serviço concluído, abandonámos à pressa a aldeia pelo lado de Alfaiates, sob o malicioso olhar das mulheres, que nos observavam pelas taliscas das portas e janelos.
Fizemos boa parte, mas íamos cientes de que em breve receberíamos na Bismula os rapazes da Rebolosa, para tirar vingança.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

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