Como as pessoas também as palavras têm o seu destino, engrandecendo-se umas, vilipendiando-se outras, mantendo a pureza e simplicidade iniciais a maioria.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaDe entre as caídas no turbilhão do descrédito, nenhuma terá sofrido mais tratos de polé que o lateronem, o grande escriba que assessorava os monarcas e deu o étimo para ladrão.
Inverso foi o caminho de minister, que à nascença referenciado a moço de recados, serviu de basse à alta dignidade que hoje são os ministros.
Hoje pretendemos ocupar-nos de terminologia política.
Quando o exseminarista georgiano, de nome DJOUGLAVITCH, ao tempo simples filiado num insipiente partido de base operária, onde era conhecido por camarada cartucheiro, alcunha devida à sua função de controlador de ficha, resolveu adoptar o epíteto de ESTALINE, ninguém imaginaria a enorme difusão do termo em todas as línguas do mundo, civilizado, incivil ou em vias de acesso à civilização.
Embora sua mãe, quando confrontada com o assombroso poder que ele detinha repetisse que seria bem melhor que ele tivesse sido padre, a verdade é que nenhum homem até agora dominou tão larga parte do Planeta Terra e teve tanta influência nos países fora da Cortina com que fechara a sua satrapia.
A palavra bolchevique teve, por igual, um nascimento discreto e até nunciador de pequenez, de grupo minoritário.
Tratava-se de uma discussão entre aparachiques, com duas propostas de cuja votação sairam vencedores, porque maioritários os mencheviques, e vencidos, porque minoritários, os bolcheviques.
Mas os vencedores foram varridos da Historia e os seus chefes imolados nas sucessivas purgas do Cartucheiro, e a palavra BOLCHEVISMO passou a designar o comunismo oficial.
Aliás a revolução russa e as suas sequelas levaram à introdução no vocabulário comum de um elevado número de termos, inicialmente de muito reduzido significado.
De KERENSKI, governante moscovita que tomou o poder logo na sequência da queda dos czares, adveio o querenquismo, designativo de sistemas políticos de transição e transigência, que podem abrir — e muitas vezes abrem — a porta para inenarráveis tragédias.
E, já que falámos de czares, aproveitamos o ensejo para realçar a extraordinária difusão do terceiro nome de CAIO JÚLIO CÉSAR, que foi imperador de Roma, depois de uma extraordinária carreira militar e literária. O nome, que até teve reflexos nos partos de barriga aberta, tecnicamente chamados CESARIANAS, por César ter nascido assim, passou a designar, adaptado às diversas prosódias, os diversos titulos imperiais — o já referido czar ou ntzar para as Russias, Kaiser para as Alemanhas, cesário para as línguas latinas.
Ou cesarismo para o poder político em oposição ao religioso, ou fundindo-se com ele — cesarismo ou cesaro-papismo.
Voltando à Revoluçao Russa, diremos que raros acontecimentos, por si e as suas sequelas, terão tido tão grande impacto no léxico político.
A Revolução Francesa teve muito menor impacto. E a sua maior influência, nos domínios da linguística, foi certamente o significado atribuído aos termos esquerda e direita, que resultou do facto de, em Julho de 1789, os membros da Contituinte, defensores da autoridade real tomarem assento no lado direito da Assembleia, para o outro lado os seus adversários.
Mais tarde um outro termo nasce e se impõe, o BONAPARTISMO, radicado na autoridade de Napoleão, que tendo partido da revolução de botas e capacetes veio a significar autoridade baseada no poder militar.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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