Nos últimos vinte anos assistimos ao fim da divisão da Europa em dois blocos político-militares e à multipolarização do mundo, com o fim da «guerra-fria». A consequência, foi a aceleração da unificação a nível financeiro, económico, social, tecnológico e informativo, do espaço planetário, que já estava em curso com o inicio da era moderna e a que chamamos globalização.

João Valente

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaI – A nova cidadania
A maior transformação que a globalização trouxe, foi o aparecimemnto de uma era pós-política e um novo conceito de cidadania:
Como dizia Carl Schmit na apresentação do seu «conceito político», «o mundo político é um pluriuniverso, não um universo». Isto é, da vida política faz parte um natural antagonismo e afastameno entre os homens e as diversas comunidades.
Porque político, numa perspectiva Schmitiana e tradicional, é a possibilidade de diferenciar soberanamente entre amigo e inimigo, e no mundo, o exercício unilateral de soberania, a globalização, unificando o espaço planetário, facilitando a circulação de capitais, pessoas, bens e informações, num processo de esbatimento de fronteiras, reconfigurou aquele conceito de política.
Alguns autores falam inclusive do aparecimento de uma «nova política», uma «sub-política» na qual os estados, partidos e elites políticas tradicionais já não monopolizam o protagonismo, aparecendo novas iniciativas promovidas por novos actores políticos em que, como refere Ulrich Beck, «as iniciativas dos cidadãos conquistam temáticamente o poder».
Com efeito, como explicava Heidegger no seu Ser e Tempo, o mundo é um totalidade relacional que nada deixa fora da sua estrutura unificadora pela teia global de relações, conexões e remissões, com que permite que tudo se torne mais próximo e «à-mão».
Junger, por sua vez, vê na «moblição total» promovida pela unificação da técnica no espaço planetário, o afastamento do presente temporal das paisagens românticas e isoladas do passado.
Ou seja, a globalização, como estrutura unitária subjacente à totalidade dos entes, permite que cada um seja o que é na quotidianiedade da nossa relação com ele; isto é, um novo tipo de cidadão. A globalização marcando tudo o que é humano pela técnica, impõe aos novos cidadãos já não a opção por políticas diferentes, mas a participação no processo de globalização crescente e inevitável, ou a fuga alienante, romântica e cada vez mais impossível, porque no mundo deixaram de haver clareiras à globalização.
E porque todo este processo é inevitável, as escolhas políticas não fazem qualquer diferença, e consequentemente, qualquer conflito político é hoje indiferente.
É esta crença na indiferença das escolhas políticas que caracteriza hoje a cidadania em geral e na prática política das democracias em que hoje vivemos. Uma consciência da total irrevelância e indiferença das escolhas e decisões politicas realizadas.
Sendo indiferente o que se escolhe, também o pocesso deliberativo, no âmbito do qual são feitas as decisões e as escolhas, é desvalorizado.
Por conseguinte, a «nova cidadania» caracteriza-se pelo crescente abandono da participação política, crescente descrença nas instâncias que na vida democrática têm a incumbência do momento deliberativo das decisões, o descrédito das instituições parlamentares, com gradual transferência das suas funções para as instâncias executivas, e numa arbitrieriedade crescente das decisões, as quais são cada vez mais alheias à crítica e ao debate, à racionalidade deliberativa.
De facto, num mundo totalmemte unificado e cuja mobilização é cada vez mais veloz, os cidadãos valorizam mais as decisões rápidas de governos dinâmicos, que a morosidade do debate, da crítica prospectiva e dos raciocínios deliberativos.
É por isso que os cidadãos das nossas actuais democracias são cada vez mais individualistas, descrentes na participação política e o poder se concentra cada vez mais nas mãos de governos de executivos governamentais e administrativos.
E com a desvalorização da participação política, os cidadãos vão perdendo a capacidade de deliberar, que apenas se adquire e cultiva e através de um processo gradual e lento de maturidade e educação nas virtudes cívicas, pela responsabilização nas decisões e capacidade de enfrentar as cisões e custos individuais que estas implicam.
(Continua.)
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

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