Quando, há um ou dois anos, o meu prezado amigo José Carlos Lages me solicitou colaboração para o «Capeia Arraiana», aceitei com a condição de ela ser esporádica, sem periodicidade certa. E, desde logo, adiantei o título geral de «Na Raia da Memória». Pretendia, desse modo, partilhar com os leitores histórias e memórias que se encontrassem no limiar do esquecimento, numa fronteira difusa: tais lembranças só sobreviveriam se fossem passadas a escrito. Regressemos hoje ao manancial inesgotável das memórias da infância aldeã, uma infância semelhante à de muitos dos meus leitores.

Jogos Infantis
de Pieter Brueghel, o Velho (1560). Museu de História da Arte, Viena.

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Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaLembro-me como se fosse ontem: tinha eu nove anos, «russo-má-pêlo», joelhos escalavrados, olhos espantados, apanhei a camioneta da Viúva Monteiro ao pé da Garagem. Era Dezembro e, às sete da manhã, ainda lusco-fusco, mal se divisavam os beirais dos telhados escorrendo carapetos. A soprar nas mãos engadanhadas, sentei-me logo atrás do chofer, enquanto o cobrador, o senhor Ismael Bárrios, subia a minha mala para o tejadilho. A minha tia-madrinha Vieira tinha-me entregue ao cuidado da senhora Ascensão para ir pela primeira vez a Lisboa, passar o Natal. O motorista era o senhor António Palocho, que lá foi avançando lentamente, ora por estradas de alcatrão ora de macadame, até ao Barracão, onde era preciso esperar quatro ou cinco horas pelo comboio. Comia-se a merenda nos bancos da estação, explorava-se o túnel da Benespera, fazia-se mais um farraiche nos joelhos, até que se começava a ouvir o apito do comboio lá para os lados da Guarda-Gare. Quando a locomotiva se aproximou, lançando vapor e faúlhas por todo o lado, abri ainda mais os olhos e exclamei: «Ai mãe, ca bitcho!»
Passo por cima da longa viagem e dos viajantes atravancando o corredor com malas, sacas de batatas e cestos de verga com «criação» a grasnar e cacarejar; e passo também por cima das bilhas de Nisa com água fresca; e por cima do túnel do Rossio com a sua fumarada a entrar pelas nesgas das janelas mal fechadas. Lá estava a minha mãe, na plataforma, à minha espera, com o senhor António José Borges, que um dia haveria de fundar o restaurante que todos os raianos conhecem mas que, nesse tempo, era motorista de táxi. Ao sair da estação fiquei deslumbrado com os anúncios luminosos do Rossio, sobretudo o do Fósforo Ferrero, com uns comprimidos brancos a saírem de um molho de espigas amarelas e a entrarem dentro de um tubo.
Depois de 15 dias de deslumbramento regressei a Aldeia do Bispo para acabar a quarta classe e levar mais umas reguadas. Lembro-me do sucesso que eu fazia junto da canalha a contar tudo o que vira em Lisboa. E do dinheirito que fui ganhando a alugar exemplares antigos do «Cavaleiro Andante» e do «Mosquito» que me tinham dado. Nunca ninguém, por aquela raia de Deus, tinha visto banda desenhada!

Camponeses a jogar golfe (Flandres, 1520)
Iluminura de Simon Bening no «Livro de Horas da Bendita Virgem Maria»

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E lá voltei aos velhos jogos infantis: ao eixo, ao pião, à «ricatchica», à «finca-la-fletcha», ao «motcho»… (coloco o t para lembrar a pronúncia, à raiana!) Alguns dos que me lêem lembram-se destes jogos, outros nem por isso. O jogo do «motcho», por exemplo, recordei-o há dias quando encontrei na Internet uma curiosíssima iluminura do século XVI, mostrando gente de há quinhentos anos a jogar golfe. Confesso que me surpreendi e até pensei que a iluminura era forjada. Já se jogava golfe no século XVI? Pesquisando mais um pouco, verifiquei que sim, que se praticava no Norte da Europa (a iluminura é flamenga) há muitos séculos. Pois bem: o princípio do jogo do «motcho» é o mesmo do golfe; só que, em vez de uma bola tínhamos um pequeno pedaço de madeira aguçado dos dois lados, em forma de cunha (era o «motcho»); e, em vez de um buraco, fazíamos no chão um pequeno círculo; cada um de nós tinha uma espécie de «taco» (na verdade um pau com cerca de trinta ou quarenta centímetros), com o qual dávamos uma pequena pancada numa das pontas do «motcho» e, depois, apanhando-o no ar, uma pancada mais forte, que o fizesse voar até longe; ganhava o jogo aquele que conseguisse recolocar o «motcho» dentro do círculo com menos pancadas. E aqui está, era este o golfe dos pequenos raianos de há 50 ou 60 anos!(*)
Muitas vezes esquecemo-nos que a Humanidade é muito antiga e que também as crianças egípcias, ou romanas, ou maias brincavam: com bonecas, com carrinhos e berlindes de cerâmica, com bolas de trapos… Para além da tal iluminura de que falei acima, deixo aos meus prezados leitores a reprodução de um quadro maravilhoso, do pintor flamengo Pieter Brueghel, o Velho, intitulado precisamente «Jogos Infantis», datado de 1560; e deixo-lhes igualmente um desafio: tentem descobrir alguns dos jogos (estão identificados 84) que estes meninos e meninas, ao todo 250, praticavam; verão que também os leitores praticaram muitos deles, quatrocentos anos depois.

(*) Sobre jogos populares (infantis e de adultos) praticados na nossa região, recomendo o livro de Mário Cameira Serra, antigo professor do Instituto Politécnico da Guarda: Jogos Tradicionais ao Serão e na Taberna, Lisboa, Colibri, 2004.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

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