No remanso das férias, reli um livro muito do meu agrado – LES CRUZADES, de ZOÉ OLDENBOURG. E retive-me num capiítulo que reputo sempre actual, até porque objecto de permanente controvérsia e se relaciona com o uso do latim nas cerimónias religiosas.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA língua da Igreja, ao tempo das cruzadas era o latim, qualquer que fosse o Pais, latino ou não latino.
Na língua do Lacio se celebravam todos os ofícios, estavam escritos o Novo e o Velho Testamento, os ensinamentos dos Doutores, o formulário das devoções.
Ora a verdade é que, mesmo em Portugal, na Espanha, em França, na Itália ou na Roménia, os estados de idiomas neo latinos, novente e nove por cento da populaçao não fora sequer iniciada na sua aprendizagem.
De resto, nem mesmo o clero, genericamente analfabeto, mau grado o papel das escolas monásticas,dominava aquela língua.
E, no entanto, embora lhe fosse áacil traduzir para os idiomas nacionais textos, comentários e orações, defendeu energicamente a exclusividade.
A autora sustenta que, sendo uma instituição supranacional – e não é outro o significado do qualificativo CATÓLICA, o latim lhe conferia em alto grau uma unidade interior.
A esta luz, a persistência pelos séculos dos formulários latinos não deve ser entendida como uma sobrevivência dum certo constantinianismo, mas como a preservação daquela sua característica essencial.
A universalização da língua, falhado o esperanto, faz-se hoje pelo inglês.
O que seria impossível quando Balduino de Borgonha – de BORGONHA, como a nossa primeira casa reinante e a segunda leonesa – simples Conde de Edessa, chegou a Jerusalém para ali se sagrar REI LATINO, sentando-se num trono que fora o de David e Salomão.
Naquele tempo, a religião era inseparável da política.
Um homem de estado, fosse qual fosse a nação, não podia empreender qualquer acção importante, sem previamente a justificar do ponto de vista religioso.
Não se tratava de demagogia, mas de um imperativo moral, universalmente reconhecido – DEUS O QUER – gritavam os cruzados.
A nossa intenção, proclamava o Infante Dom Henrique, é ALARGAR A SANTA FÉ DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO E TRAZER A ELA TODAS AS ALMAS QUE SE QUEIRAM SALVAR.
Os interesses materiais de qualquer estado, embora marcados pelo carácter do transitório não se imagimavam para além dos mobeis religiosos que não podiam beliscar.
Os homens deviam ser encaminhados e não arrastados para o templo…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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