Em tempos de solteiro já corria desenfreado por festas, feiras e romarias. Terra onde houvesse pé de dança ou se armasse briga no terreiro, ali caía disposto a tudo.

Mas aquilo eram tempos do catano. Meu pai, que Deus haja, cortava-me as asas e, em domingos e dias santos, mandava-me pastorear as ovelhas. Ora eu não era pessoa que quedasse num lugar quando malucava ir a outro. Logo que se aprochegasse o meio do dia mandava-me a uma das cabras da piara e tetava umas goladas, rilhava a côdea que traguia no bornal, mandava o cajado pró diacho e lançava-me à desfilada, direitinho a onde me fairasse arraial. O gado ficava bem entregue aos dois cães da pastoria, que melhor do que eu o sabiam guardar.
Quando fui dar o número ao Sabugal, e me vi livre de carregar a mochila de soldado, o velho agraciou-me com um par de botas ferradas.
– Não quero que rompas a pele dos calcantes nem dês cabo de mais tamancos. Aqui tens calçado p’rás tuas correrias domingueiras.
Queria ver-me casado e fora de casa! Botei-me então a correr esses caminhos de Deus, em busca de noiva, nos entrementes do contrabando a que me passei a dedicar.
Encertei-me nas levas do amor namoriscando uma raparigota de Alfaiates, a Maria Bernardina. Era moça pegada aos vinte, a quem não faltavam pretendentes lá na terra. De tal lhe andavam ao fairo, que logo quando lhe botei faladura me apareceram os rapazes mais tisudos do povo a reclamar a patenta. Tive que lhes baralhar as voltas e andar fugido daquele poiso. Só em noites de breu me atrevia ir trocar umas lerias com a galfarra. Mas, enfadado dessas lidas, quis pôr tudo em pratos limpos:
– Ó Bernardina! Ou vamos amanhã ter com o prior ou vou-me andando à pergunta d’outra.
Ficou-se-me em pranto, o raio da moça. Que não podia ser, que tudo tinha o seu tempo, que lhe diria o pai se ainda mal sabia do derriço… Tive de largá-la e ir em busca de outras paragens.
Conheci então a Maria Rita num arraial em Ruivós. Era rapariga esbelta, trabalhadeira e, ao que soube, bem entendida nas lidas da cozinha. Vinha-me a calhar! Ainda lhe cheguei a falas, mas logo me veio aos ouvidos que seu pai, que era o regedor, a tinha bem guardada para um morgado lá do povo. Para evitar demasias decidi retirar-me de tais terrenos.
Durante muito tempo corri a Raia à cata de rapariga. Namoradeiras havia muitas, mas a maldita fama de corrécio e bom puxador de naifa não me ajudava nada. E já quase tinha perdido a esperança de formar família e mudar de vida, quando se me chegou o Chico Moita, meu companheiro de caminhos e atalhos, e me disse ao ouvido:
– Olha lá, Zé! Boa mulher, bem constituída e desembaraçada, há-a na Malhada. Não seria mau dares por lá uma volta.
– E que idade tem a perdigota?
– Já anda chegada aos trinta, mas está ali um bom partido. Se por lá fores toma tino no que te digo: só quer homem trabalhador e que dê bom chefe de família. Ao que por aí ouvi zurrar, já muitos se lhe chegaram e não a convenceram.
No dia seguinte, logo pela alba, meti-me a caminho da Malhada Sorda, a ter com a dita senhora. Não é que tivesse grande fé no propósito, mas sempre lá ia para me desenganar. Soube no povo que tinha uma quinta a pouca distância, onde vivia e tomava conta de muito vivo. Recebeu-me uma mulher alta e morena, vestida com saiote até meia canela e uma curta blusa de tomentos, deixando adivinhar fartos e formosos seios. A blusa arremangada deixava mostrar também uns braços musculosos, por certos devidos à muita faina.
– Que quer cá da quinta? Se vem pra comprar ovos ou peles de ovelha, por agora a casa está vazia.
– Venho plos seus dotes, minha senhora! – arrumei-lhe de caras.
– Ora, isso não é pra qualquer um! Entre, que já se verá.
Já no curral, mediu-me de alto a baixo e deitou a manápula a uma garrancha.
– Muitos têm vindo na mesma fé. É certo que preciso de marido, que o tempo está-me a passar, mas só me leva o que for melhor que eu em trabalho e em manha.
– E como quer que lhe mostre a valentia? Jogamos à pancada?
– Nada disso. Pegue nesta garrancha e dê-me uma demão.
Hesitei em ajavardar a roupa nova que vestia, mas decidi-me a aceitar a compita. Entrei na corte e arranquei o estrume, que encimei em moreia no curral. Depois fiz a cama do vivo com duas fachas de palha centeia e descarreguei ainda um carro de feno que estava junto à palheira. No fim, já cansado, quis saber a sentença:
– Ora diga-me se o desembaraço foi do seu agrado.
– Bem, isso ainda se verá na ordenha do gado, que está por fazer.
– Conho! Agora percebo porque nenhum a desencantou desta furda! Se quer criados pague a um ganhão que a sirva no trabalho e a aqueça na enxerga.
Palavras ditas e em três pulos tornei ao caminho que me levava a casa. Alguma cachopa lá encontraria na terra que isto ali de andar a mando de saias não me estava no feitio. Bem me dizia minha mãe: livra-te de mulher que sabe latim e de moça que faz im!
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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