Foi com grande pesar e emoção que assisti no passado domingo (09/10/2011) à Missa em memória da Professora Cacilda Janela Afonso celebrada na Igreja de Quintas de S. Bartolomeu. A palavra, a fé e a moldura humana presentes foram a expressão de uma vivência forte e emocionante.

Cassilda Janela AfonsoMas, para mim foi mais do que isso. Há momentos na nossa vida que, pela tristeza envolvente, intensidade, mas ao mesmo tempo, beleza e invulgar brilho de que se revestem, nos tocam de tal modo que, aliados à solenidade do acto, nos parecem quase mágicos e nos tocam até às lágrimas. Foi o que me aconteceu em dois momentos particularmente emocionantes deste solene acto.
O primeiro foi aquele em que o meu pai, com sacrifício enorme em se deslocar (90 anos já pesam), apesar da curta distância que separa a nossa casa da igreja, ganhou forças para estar também presente e lá esteve, mesmo cambaleando e sem pernas para conseguir arrastar-se e ficar em pé, aproximando-se do outro lado do altar (digamos do lado oposto à sacristia) onde esteve sentado.
Foi o último a comungar e assim terminou, para mim, com chave de ouro aquele acto, constituindo como que um momento mágico em que, o que parecia horas antes impossível, com força de vontade e como que por Divinal ajuda, resultou naquele emocionante e bonito momento. Vieram-me as lágrimas aos olhos ao vê-lo ali, em pé e com aquele esforço. Aquela imagem permanece na minha memória.
O segundo momento teve que ver com a intervenção de um dos filhos, o Virgílio (por ele e em nome de todos os seus irmãos todos, eles ali presentes) em que, talvez pela decoração da igreja com flores brancas, a beleza do poema, da autoria de Fernando Birra, um talentoso jovem das Quintas, dedicado à mãe, teve outro brilho, outra suavidade que até nem sei se as há na natureza.
Na verdade as Quintas, aldeia onde as casas estão semeadas pelas várias e pequenas encostas e vales e com aquela configuração única no concelho do Sabugal parecia ter transformado a sua natureza agreste de encostas e vales cobertos de denso arvoredo em suave jardim de rosas brancas.
Por outro lado pela forma como o poema foi dito em homenagem à mãe, e pela maneira simples, curta e muito bonita utilizada nas palavras dirigidas aos presentes, constituiu um gesto deveras singular e comovente.
Com as saudades que senti no momento e a lembrança dos meus sonhos de infância e das pessoas da minha aldeia já falecidas, ao ver a família ali reunida na igreja, dei por mim a pensar na coincidência, talvez também única, e especial, quanto a idades e quanto a membros dos respectivos agregados familiares da minha e daquela família tão querida e amiga: a Avó Filomena (mãe da Professora), a figura mais imponente e tão bonita, com os seus lindos cabelos, da idade da minha avó Isabel, ainda mais bonita e com os seus também lindos cabelos brancos; a minha mãe, com seis filhos tantos quantos os seus seis filhos ali presentes e com idades também muito parecidas com as nossas e, ao que me consta, também com diferença apenas de meses da idade da Senhora Professora Cacilda.
Foi uma sensação tão especial e única que quase pareceu que o Céu naquele momento se reuniu para que aquela grande amizade, que sempre uniu as nossas famílias quase tão iguais no seu número de pessoas, nunca se perca nem seja esquecida. Há, de facto, momentos que apesar da dor e tristeza nos lembram, no dizer de um poeta farense, já falecido e meu amigo, que «Navega em cada pessoa, a barca que a vida é, cheia de sonhos à proa e saudades à ré». Ele tinha a mania de utilizar uma espécie de linguagem náutica (talvez por viver ao pé do mar) mas sempre com profundo significado, como resulta desta quadra.
Com este testemunho e estes meus sentimentos de grande estima pessoal e elevada consideração, aqui deixo a minha singela homenagem a uma das grandes Professoras do Distrito da Guarda. Leccionou em várias localidades do Distrito, incluindo no concelho do Sabugal, nas Quintas de S. Bartolomeu, onde foi minha professora na antiga Escola Primária desta Aldeia, onde gozava do afecto da população. Amava muito as Quintas, como toda a família, mas nunca deixou de pensar nos EUA ,onde nasceu, bem como os restantes irmãos, e de onde regressou com apenas oito anos de idade com os seus pais.
O seu grande saber, rigor e competência são dignas do maior apreço, sendo uma das mais conceituadas Professoras do seu tempo.
Mas, acima de tudo, quero destacar o seu carinho e ternura e as atenções sempre dedicadas a toda a minha família, particularmente aos meus pais, a mim e a todos os meus irmãos, distinguindo-nos sempre com a sua grande amizade.
Pena foi, pela minha parte, que a distância e a minha atarefada vida não me tivessem permitido visitá-la como era minha vontade e do que agora me penitencio.
Por essa amizade, e todo o bem que sempre fez, quero pois deixar-lhe aqui expressa e, por escrito, a minha homenagem, gratidão e apreço.
As Quintas ficam mais pobres.
Renovo as minhas mais sentidas condolências à família enlutada.
Faro, 12de Outubro de 2011
Álvaro Corte

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