Corre um tempo quente que queima o mês de Outubro enquanto este avança e se esgota num Outono com temperaturas de Verão.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Assim, como assim, a vida não pára e colaborar no Capeia Arraiana é, para mim, um enormíssimo prazer. Evidentemente, tal colaboração inscreve-se-me numa obrigação quinzenal que carece de assunto e, se assim é, a observação poderá ajudar!
Olho, então… e olhando, vejo curtas planícies, a que o povo chama baixas. Mas, para além disso, vejo a diversidade dos montes e dou com a Serra, a tal Serra que toca as estrelas. Reparar nela é como olhar para mim próprio, assim a minha existência coincide com a sua presença.
E, claro, há outros montes para além da Estrela. Há o «Crucho» como é, popularmente, conhecido o cume do Monte do Jarmelo. Ele distancia-se um pouco da Serra mas é omnipresente numa paisagem que tenho a felicidade de observar diariamente.
Esbranquiça-se, então, o «Crucho», na distância e envolve-o um nevoeiro pouco denso lembrando fumo branco. No cimo exibe, furando os Céus, um enorme marco geodésico, alto, de mais de sete metros.
Permita-me o estimado leitor que eu compare este marco a um enorme dedo levantado, um dedo maior, um dedo de honra, sempre presente na distância…
«O Crucho» parece desabrir num quase protesto. Parece sublinhar a pretensão de sustentar e até de reavivar novos argumentos. Este enorme dedo que, na realidade, é estático parece ser intensamente manuseado e parece não permitir que a história do Monte seja mindinha.
E se é verdade que apenas um dedo não faz a mão o dedo maior quer, aqui, substituí-la em acenos, num importante chamamento de atenção.
Por estranho que pareça este modo representativo, este dedo, pode dizer que, embora, indo-se os anéis, podem ficar os dedos para novas angariações.
Baila, assim, no meu pensamento a convicção de que, para além das específicas funções que, primordialmente, atribuíram ao marco ele persistirá num chamamento aflito, desmesurado, gritando nas alturas.
Este marco grita de pé entre as ruínas tentando evidenciar vestígios que parecem escapar à mão da história. Ora, se essa mão, por aqui, deixou perder os anéis, acreditem, ainda mantém os dedos.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo