Nos anos 50 e 60, quando no Casteleiro ainda se cultivava qualquer «chãozinho» que a família tivesse, a água desempenhou um papel económico central. Era fonte de vida humana: directa (bebia-se) e indirectamente (com ela se alimentavam os animais domésticos e se regavam as produções agrícolas). Por causa da água se vivia e se morria (sem exageros).

Antes de mais, há que dizer que a água no Casteleiro sempre foi um bem muito escasso, excepção feita para a Ribeira e suas margens. Hoje ainda mais – mas há pelo menos dois factores que reduzem o impacto real desse facto sobre a vida das pessoas: primeiro porque há abastecimento público de água canalizada em todas as casas desde há muitos anos (os miúdos de hoje já nem imaginam o que seja ir de cântaro à fonte buscar água); e depois porque o cultivo de terrenos hoje é mínimo.
Dantes não era assim.
As fontes, os poços, as charcas, a ribeira, os regatos, as presas (represas)… fosse o que fosse, se tivesse água, era um filão.
Os modos de extrair a água da Natureza não são muito diversificados: vão apenas do cântaro ou qualquer outra vasilha quando se apanha directamente, até à «burra» (picota) ou à nora, esta puxada por burros ou por vacas.
Acho que a maior parte das pessoas – por não terem burro nem vaca – tirava a água da ribeira ou dos poços com a tal «burra», mas a maior parte da terra seria regada na base da água tirada com nora (porque, claro, cada proprietário de burro ou de vacas teria muito mais terra do que os outros).
Nas meias encostas, a presa era a safa: era só abrir e a água – se a havia – vinha por aí abaixo.
Toda a alimentação humana se baseia na água. Toda a higiene humana se faz à base de água.
Os animais domésticos dependiam da água, fossem os de companhia, fossem os de criação para matar e servirem de alimento.
Daí, a importância da água em todas as horas de todos os dias.
«Regar à adua» era quando os vizinhos de uma presa ou de um poço, em geral por razões de herança, tinham de partilhar entre si a água para regar as suas produções agrícolas.
Resumindo: a água esteve presente de forma bem vincada e sempre falada pelos adultos em toda a minha infância. Ou faltava ou era tão pouca que as culturas chegavam a ser regadas aos bocados, uma parcela em cada manhã ou em cada tarde. Isso constituiu sempre uma grande preocupação das pessoas que se referiam ao assunto com grande angústia, se bem interpreto hoje a coisa.
Ali por alturas de Junho-Julho, quando o calor começava a apertar e as culturas a secar desalmadamente, portanto quando a terra cultivada precisava mais da água – era exactamente quando a água começava a rarear nos poços e nos regos e se tornava preocupação constante e sem solução.
Assim era a vida angustiada de muita gente na minha aldeia nesses tempos duros e complicados – para não dizer desumanos.

Água radioactiva
Marginalmente, vou referir um aspecto que podia ter transformado para melhor toda a vida de muitas pessoas do Casteleiro – mas que deu em nada, ou por burla ou por desleixo.
Tem a ver com a história das Águas Radium.
Foi um caso que aconteceu antes de eu nascer.
Toda a zona do chamado «Marneto» (Marineto), que se localiza nas costas da Serra da Bica e que do nosso lado nós já chamamos impropriamente Serra da Vila, tem água com o mesmo tipo de composição química, mesmo que menos acentuada. Ou seja: trata-se da mesma serra que, do lado da Azenha e da Quarta-Feira, tem urânio em dose apreciável ao ponto de os ingleses ali terem aberto e gerido a célebre Mina da Bica (mais tarde fechada por razões de pouco interesse económico e, depois, por causa do perigo de contaminação). Desse lado, a composição química da água permitiu a abertura da exploração de águas radioactivas pelos espanhóis e depois pelos ingleses com a criação do grande Hotel cuja ruína ainda ali permanece a enfeitar a serrania, para nossa miragem saudosa.
Na mesma serra, do lado do Casteleiro, as águas têm urânio mas não em quantidades que as tornassem economicamente dignas de exploração. Para muita gente, prova disso é o número de pessoas que no Casteleiro tinham problemas de estômago, talvez mesmo o que hoje se chama cancro.
A composição química das águas é ligeiramente parecida à das da Serra da Pena.
Tanto é assim, que os ingleses terão chegado a estabelecer contratos de exploração com alguns proprietários para que os camiões ali viessem encher – os engarrafamentos eram sempre feitos na Serra da Pena. Esta água tinha nessa altura muita saída e a quantidade existente lá não chegava para as vendas em Castelo Branco e em toda a região.
Mas o negócio nunca deu em nada: por um lado, os ingleses eram de más contas e, por outro, o negócio das Águas Rádium foi abaixo muito cedo.
Uma oportunidade histórica perdida para muitas famílias do Casteleiro.

Nota final
Ironicamente, quando o sistema de rega da Cova da Beira chega, com o canal que atravessa hoje uma parte do Casteleiro… já não há ninguém para cultivar e precisar do canal para regar…
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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