De madrugada, ainda lusco-fusco, ergui-me da enxerga e fui à corte desamarrar o macho, que depois aparelhei e carreguei com uma boa carga de fazenda.

Seguia agora pela tapada da Relha, com a besta de rédea. O animal andava com dificuldade, batendo os cascos no códão formado durante a noite. As encostas em redor branqueavam do sincilro pousado nas giestas e carvalhos. Era Janeiro, tempo em que o vento cieiro e as geadas faziam tremelicar toda a Beira. Mas eu era homem do frio. A vida de contrabandista e azemel não permitia sentar-me por muito tempo à roda do borralho. A azáfama era muita e não havia na redondeza feira ou mercado a que faltasse.
Meti pelo vale Carvalhão, em direituras de Vilar Maior. Quando entrei na antiga vila, já o Sol raiava derretendo a geada, pondo os campos a fumegar. Povoado adentro enfiei pela quelha onde tinha poiso o Tonho Varão, velho companheiro de ofício e de largas caminhadas, que me esperava para seguirmos de carava para o mercado da Malhada. À entrada do curral prendi a besta à argola de ferro chumbada na parede, abri a portaleira e ia a dar passo para dentro quando, para meu espanto, me caiu nos braços a mulher do Tonho, esbaforida e a berrar que nem uma vaca acabada de parir.
– Acode-me! Acode-me, ó Zé, c’o mê home me quer derrear!
Sem saber o que fazer com aquela massa de gordura agarrada ao cachaço, surgiu-me o marido com a cilha da burra na mão.
– Anda, meu grande estojo, que te faço a pele em tiras!
Avancei então dois passos, colocando o monte de banha atrás de mim, disposto a enfrentar a fera.
– Alto lá, Tonho! Se sou teu amigo, bem te aconselho: ao borracho mete-se-lhe a mão por baixo. Tens aqui um pedaço de mulher e passas o tempo a sová-la? Fêmea tão bela e valente não há outra na Raia!
– O quê? É uma desalmada! Só quer ressonar… O sol de alevanto e ela encafuada no ninho, tendo a vianda dos bácoros pra fazer. Anda cá, colandrona, que te faço as contas!
– Deixa, homem, se bem dorme melhor se conserva. Lembra-te que esta mulhar já te pariu três ganhões, que bem alimentou e educou. Deixa-os crescer e verás que valentões se vão fazer. Pensa lá Tonho, na sorte que Deus te deu…
Transtornado pelo que ouvia, o homem ficou quedo, dando mostras de não saber que fazer. E eu continuei a atacar-lhe, agora de falinhas mansas.
– Toma fé na tua vida. Isto é mulher de bom ventre, não a desmanches. Já apanhou porrada cabonde, e ainda te vai dar à luz mais uns catraios. E tu bem os precisas, para teu descanso!
De pouco em pouco, o Tonho Varão foi-se ficando.
Consegui convencê-lo de que aquele pedaço de unto era a melhor fêmea de toda a Raia.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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