Hoje vou «falar» de – imagine – batatas. Não de batatas como realidade gastronómica. Não: a batata como um ente importante da economia regional. Cresci a ouvir falar de três tipos de batata, conforme a origem da semente: a) batata de Montalegre; b) batata «rambana»; c) batata «ranconse».

É sabido como nesse tempo dos anos 50 a batata assumia proporções de grande consumo e portanto de grande produção no Casteleiro e arredores. Eram leiras e leiras, terras baixas e meias encostas: onde houvesse água para as regar, vai de cavar, cavar, cavar ou lavrar (alguns mais abastados) e vai de encher tudo de batata.
Essas grandes quantidades davam para dois objectivos centrais: 1º – comer batata todo o ano lá em casa; 2º – vender a que se podia e juntar alguns escudos para… produzir mais batata no ano agrícola seguinte.
As melhores batatas, sempre ouvi dizer, eram exactamente as de Montalegre e, claro, a «estrangeira»: a «ranconse» e a «rambana».
Ouvia estas duas últimas palavras como se fossem adjectivos anexados ao substantivo batata e sempre se meteu comigo o facto de não me parecerem palavras nossas.
Mas, quando se é pequeno, isso fica entre nós e os nossos botões.
Assim sucedeu comigo até que, ali pelos 14 ou 15 anos (sei que já tinha Inglês), no armazém do Sr. Tó Pinto, que por acaso era na parte de baixo da casa do meu bisavô Pedro, um dia vejo algo que me fez luz no cérebro naquela exacta zona dos neurónios onde as sinapses ligavam então os conceitos de batata e de «ranconse». O que vi nessa tarde? Coisa simples: uma saca de serapilheira cheia de batata (eram às centenas, lá) com esta inscrição a preto sumido: «Arran-Consul».
Fez-se luz.
Nunca vi o nosso Povo enrascado com palavras ou com modos de falar. Isso, sempre me impressionou quando, depois da adolescência, comecei a tomar consciência dos processos evolutivos da língua, mesmo que por caminhos ínvios.
Se não vejam: arran-consul deu ranconse; arran-banner deu rambana.
Nada mais simples. Nada mais directo.

Batata «rambana»: batata «non grata»
Mas a «rambana» nem sempre terá sido uma batata benquista.
Por exemplo: em Novembro de 1975, já ano e meio depois do 25 de Abril, e no meio do mês quente que aquele foi, para proteger a batata de semente nacional, obrigava-se os importadores a garantir antes de mais o escoamento da dita e só depois poderiam importar. Mas não a Arran-Banner. Não sei porquê, mas é isso que consta de uma Portaria daquela data: «É livre a importação de todas as variedades de batata de semente incluídas na lista a que se refere o artigo 20.º do Decreto-Lei n.º 36665, de 10 de Dezembro de 1947, com excepção da variedade Arran-Banner. / Só serão autorizadas importações iguais ou superiores a 50 t por cada variedade».
Sei que em 1947, os ministros de Salazar já protegeram a batata nacional.
Mas é já com Marcelo, em 1971, que é publicado um Decreto-Lei que liberaliza a importação de batata de semente.
Mas as tais duas, só por contingentes: «É livre a importação de todas as variedades de batata de semente (…)» mas «a importação da batata de semente das variedades Arran-Banner e Arran-Consul será efectuada segundo o regime de contingentes».
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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