As autarquias locais são, nos termos da Constituição, «pessoas colectivas territoriais dotadas de órgãos representativos que visam a prossecução de interesses próprios das populações respectivas». E será que todos os eleitos sabem isto?

José Carlos LagesNuma aldeia da Beira Alta foram substituídos durante o mês de Agosto os postes de transporte de electricidade e iluminação pública. As novas estruturas, mais robustas e altas, tomaram o lugar, também, de alguns pilaretes que estavam (ao que parece) ilegalmente encrustados nas paredes das casas privadas.
Numa ruela estreita quase exclusivamente pedonal que dá acesso a duas ou três habitações e a uma adega foi marcado, inicialmente, no pavimento o lugar de abertura da sapata para a colocação do poste da EDP.
Após alguns alertas dos moradores e utilizadores da dita ruela a localização do novo poste foi desviado cerca de cinco metros para o outro lado da ruela. Tudo isto com a supervisão dos técnicos da eléctrica portuguesa. Mas… eis que chega o autarca presidente e logo ali considera que a melhor localização é em frente à porta de uma adega.
A proprietária entendeu chamar à atenção para a gravidade da nova localização que, evidentemente, prejudicava claramente a serventia da dita adega que, além de ter feito parte da Rota das Adegas, tem vindo a sofrer alguns melhoramentos no sentido de manter a traça original que vem dos antepassados dos actuais proprietários.
O presidente da Junta de Freguesia aceitou rever a localização e encontrar uma solução que fosse do agrado de todos os proprietários da ruela. Após uma longa espera pela resposta do presidente da Junta de Freguesia e depois de uma conversa telefónica com o responsável pelas reclamações da EDP percebeu-se que apenas necessitavam do pedido da Junta de Freguesia e que, sem qualquer problema, deslocariam o poste para outra localização.
Há, assim, algumas conclusões a tirar:
– Alguns autarcas parecem apenas conhecer metade da cartilha e «visam a prossecução dos interesses próprios» esquecendo «os das populações respectivas».
– Alguns autarcas acham que quando são eleitos acabaram de adquirir uma quinta ou uma empresa.
– Alguns autarcas acham que podem utilizar o poder que lhes é investido pelo voto popular para ressabiamentos e ajustes de contas pessoais por iniciativa própria ou para satisfazerem alguém.
– Alguns autarcas nem sempre estão à altura dos lugares que ocupam.
Tudo isto seria um episódio sem importância se a aldeia não pertencesse ao concelho do Sabugal e não ostentasse no seu nome Ruivós.
De facto há quem tudo faça para convencer os outros, os que vivem «longe», que não percebem nada de certas realidades locais. Estranha e patética certeza.
«A Cidade e as Terras», opinião de José Carlos Lages

jcglages@gmail.com

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