«A Igreja parece estar cheia de medos e desorientação frente ao Mundo contemporâneo – precisamente por isso – procura quase com desespero que nada mude e – obviamente – reforça as alianças mais conservadoras procurando por todos os meios possíveis evitar toda a mudança que assusta»; Padre Eduardo De la Serna (argentino).

António EmidioA Igreja actual ao reforçar as alianças mais conservadoras contribui inexoravelmente para a perca cada vez mais acentuada de praticantes, não de crentes, embora a fé destes se tenha transformado numa coisa abstracta, longe do que pregam os evangelhos. Impera o que o sistema transmite, o egoísmo e a tendência de se deixarem deslumbrar por sub-valores que nada têm de cristãos, como o lucro, a ambição de poder, o individualismo, o consumo exacerbado e a idolatria pela técnica. Por mais paradoxal que pareça, são os próprios crentes a ter consciência do que está a acontecer, existem tendências dentro da Igreja para uma mudança deste status quo. Procura-se uma visão mais cristã da sociedade, adaptada às necessidades do homem actual, mas ao mesmo tempo a alta hierarquia da Igreja permanece numa atitude retrógrada e num tradicionalismo serôdio, vive numa obsessão de condenar o aborto, com isso dá a impressão que se preocupa mais com os que ainda não nasceram do que com os habitantes da Terra, esquecendo também que nenhuma religião nem nenhuma ideologia são donas do corpo da mulher. Preocupação com a eutanásia, com o preservativo, com o divórcio, com a homossexualidade e, muito sub-repticiamente tenta submeter o Estado Democrático à sua hierarquia, com isto quer combater o laicismo e recusa libertar-se do poder temporal que não lhe pertence.
A palavra que mais vezes aparece nos Evangelhos é a palavra POBRE, porque será então que a alta hierarquia da Igreja Católica rejeita a Teologia da Libertação, que é uma teologia com uma opção permanente para com os pobres, embora tenha nascido na América Latina, está actual em qualquer parte do Mundo. Esta teologia não considera os pobres como um simples objecto de ajuda, compaixão e caridade, considera-os capazes de se libertarem lutando contra os seus opressores. A Igreja oficial aceita todo um sistema em que a dádiva e a mendicidade – de várias formas e maneiras – representam a bondade, mas tudo administrado por ela. Ou seja, a caridade e a esmola. Só durante o reinado de João Paulo II foram silenciados 140 teólogos, a esmagadora maioria empenhava-se em ajudar os mais necessitados, os párias da Terra.
Dizia Vítor Hugo: «faz-se caridade quando não podemos impor a justiça». Os pobres, os marginalizados, não necessitam de caridade, querem justiça! A justiça vai às causas, a caridade aos efeitos.
Ainda tenho presente na memória aquela imagem que vi na televisão, em que João Paulo II, enfurecido, criticava o sacerdote e ministro Sandinista, Ernesto Cardenal, cuja culpa era ter lutado contra a miséria e a injustiça. Com estas atitudes, não é de admirar que sejam surjam criticas como esta de do filósofo Max Horkheime: «Quem lê o Evangelho e não vê que Jesus morreu porque tinha uma doutrina diferente dos seus actuais representantes, esse não sabe ler, é o sarcasmo mais incrível que jamais aconteceu a um pensamento». Agora com palavras minha direi que «actuais representantes» considero o Papa e a sua Cúria.
Termino dizendo que um dos pontos principais do cristianismo é Cristo feito homem, ou seja, Deus feito homem. Sendo assim, o que se deve pedir aos cristãos e, até exigir-lhes, é que imitem Cristo, lutem contra os poderosos pela libertação dos mais pobres.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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