Foi há pouco tempo criado em Portugal o chamado «apadrinhamento civil», que basicamente pretende que sejam perfilhadas crianças em risco, sem que se recorra à estafada figura da adopção. Penso que, de asneira em asneira, esta sociedade se degrada, porque a tradicional figura do padrinho há muito que está em crise e não me parece que esta nova medida a irá reabilitar.

Ventura ReisNo meu tempo de mocidade o padrinho tinha no seio da família um papel tutelar e era merecedor de um respeito absoluto. O mais importante era o padrinho do baptismo, que tinha responsabilidades na educação dos afilhados, mas também havia os padrinhos do crisma e do casamento, que não deixavam de ter a sua importância.
O meu tio Joaquim Reis, o irmão mais velho do meu pai, foi por este escolhido para nos apadrinhar. E todos os irmãos o tivemos como padrinho de baptismo. Sempre lhe chamámos «padrinho» e nunca tio, ficando assim diferenciado dos restantes irmãos de meu pai e de minha mãe.
Cabia ao padrinho acompanhar a educação dos afilhados, o que ia muito para além das obrigações de índole religiosa. O padrinho estava sempre a par de tudo o que acontecia com os afilhados e se algo corria mal, era a ele que os pais recorriam em primeira instância.
No Sabugal antigo havia mesmo um ritual associado à responsabilidade dos padrinhos, que era ofertar, no dia dos Santos, uma bola de azeite, também chamado santoro, a cada um dos afilhados. E ai do padrinho que não cumprisse este acto simbólico, que significava o compromisso e a atenção para com os afilhados.
Mas eis que vieram os tempos da modernidade e da irresponsabilidade, onde ser padrinho já nada significa. Hoje é fino escolher padrinhos diferentes para cada um dos filhos, e o papel que lhes está reservado resume-se a estarem presentes na cerimónia festiva e darem um bom presente aos afilhados. A partir deste acto, o padrinho fica simplesmente esquecido, pois não lhe está reservado qualquer papel na educação e no acompanhamento dos afilhados.
Esta realidade dos tempos de agora, leva-me a considerar anedótico que se tenha legislado criando a figura do «padrinho civil» para as funções de acolhedor de menores em risco. Segundo a lei, os pais têm de consentir o «apadrinhamento» e mantêm os direitos relativamente aos filhos não podendo ser privados de os visitar e contactar. Os pais devem ainda conhecer os padrinhos (porque não são eles que os escolhem), o seu local de residência e ser por estes informados sobre a progressão escolar, profissional ou de saúde dos filhos. Até se diz na lei que têm direito a receber fotografias e ainda a visitá-los «nas condições fixadas no compromisso».
O que eu pergunto é quem está preparado para fazer este papel de padrinho, quando tal figura deixou de existir naturalmente, com o evoluir dos tempos e com a vitória da irresponsabilidade sobre o compromisso de antigamente?
O mundo está virado do avesso e esta é mais uma medida de desgraça, condenada ao fracasso.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis