Havia uma colina com um castelo ao cimo e um rio a curvar-se, lentamente, na base da colina, aos pés do castelo. A cidade expunha-se a nascente. Os choupos e os freixos insistiam junto às águas. Os prados e as hortas acastanhavam-se num verde de finais de verão.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Afastava-se do rio um homem de balde na mão, cana de pesca ao ombro. O castelo ficava-lhe a trás. Não era um homem jovem. O chapéu tentava definir-lhe a idade. Era tarde, quase noite e era rua, ou melhor, eram campos. Dir-se-ia que o homem caminhava, cansado, em busca de aconchego.
Traria peixes no balde? assim o insinuava a cana de pesca!
O castelo, lá no alto, com ares de eterno, lembrava passados distantes.
Mas, um pescador sabe o que pesca e nem sempre pesca, só, peixe. Também pesca histórias e sabe, bem, porque razão não se entrega, apenas, à bisca da tarde, na tasca. Vai sem dizer ao que vai e regressa desenhando a silhueta esbatida no esmorecer do dia. Faz tudo isto por razão forte, com alma indevassável. Admite, sem dúvida, outro tipo de convívio, um convívio diferente daquele desgaste lento da reforma. Admite conviver com os peixes, com as águas, com as margens, enfim, com o rio. E, ao regressar, transporta no balde peixes e histórias.
Vem, então, o homem. Abandona a margem e atinge a dobra da avenida, lá, de onde o observo a ele, ao seu rio e ao seu castelo. Quando passa por mim, diz-me como se viesse de cumprir uma missão:
– Boas tardes amigo.
Deliciava-me, eu, nestes pensamentos e perguntei-lhe:
– Então e os peixes abonam?
Respondeu-me:
– Nem por isso… Já não é como era!
Dizendo isto, lançou um olhar longo, extremamente expressivo, englobando razões e espaços.
De facto há gestos assim, equivalentes a palavras valiosas, àquelas palavras poucas, capazes de desencalhar. Há gestos que são mais do que palavras!
O castelo das cinco quinas, no Sabugal, testemunha perene de todos os tempos, firme na sua solidez granítica, dono da sua altura de sempre, olhava-nos a mim e ao homem e penso que, também, me quis integrar neste quadro. A personagem principal era ele, o homem que possuía o poder das palavras poucas, das palavras simples e dos gestos expressivos. Era um pescador do Côa. No balde trazia peixes do rio e, talvez, muitas histórias. Eu, apenas, queria contar!
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo