Quando eu era pequeno, a malta da minha idade toda tinha uma gorra – os rapazes, claro. Ter gorra era como ter caderno para levar para a escola: era obrigatório. Mas o que era a gorra, de onde vinha, como chegou até nós?

A palavra gorra vem do espanhol e as gorras vinham da Espanha. Uma gorra é uma boina. Mas não uma boina qualquer. Nada como as boinas dos Páras, dos Comandos ou dos Fuzileiros. Nada como as boinas que hoje as meninas usam.
Gorra que se prezasse era preta, à medida da cabeça, tinha um atilhozinho no cocuruto e andava meio de lado. Assim como depois todos vimos nas fotos de posteridade do Che Guevara. Essa era a gorra que nos anos 50 inundava o Casteleiro.
Mas, se falo do objecto, é também para falar da pessoa que as trazia para a nossa terra.
Não sei o nome dela. Era uma contrabandista. Chamávamos-lhe a Ti’ Quadrazenha. Imagino que era de Quadrazais, claro – mas nem sei se era, porque, para nós, tudo o que fosse para lá de Santo Estêvão era arraiano e, mais provavelmente ainda, se vendia coisas que vinham da Espanha, era quadrazenho.
E o que é que vinha da Espanha, para lá da gorra?
Vários bens de contrabando. Atravessavam a fronteira clandestinamente, eram baratos e muito úteis. Exemplos de que todos se lembrarão: caramelos, cacau, chocolate, alpercatas («alpragatas» – era assim que se dizia), entre outros.
De cá para lá, atravessavam café e tabaco, leio num trabalho publicado sobre o tema – que pode consultar aqui e ler algo interessante na pág. 25, nota 8, sobre o Soito, muito dinheiro e o contrabando…
Da Espanha, pela mão da Ti’ Quadrazenha, chegavam-me ainda as celebradas galletas. Coisa boa, saborosa, doce e macia…
Assim era há mais de 50 anos no Casteleiro: uma senhora vinha da Raia e era muito bem-vinda porque nos trazia algumas delícias e guloseimas espanholas. Ah, e trazia sempre as tais gorras com que tapávamos a cabeça: uma imagem de marca que se perdeu nos confins do Tempo…

Nota
Coincidência interessante: andava este texto a bailar-me na cabeça e uma manhã sento-me e despejo para as teclas. Quando vou à procura da minha «assinatura» editada pelo PLB, abro o «Capeia» e qual o artigo de frontpage? Uma peça sobre contrabando. Ri-me – mas mantenho o que já tinha escrito, mesmo arriscando a imagem de in-orignalidade temática… A verdade é a coincidência: porque elas, as coincidências, existem, sim. Agora vejo que sim…

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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