Foi meio a brincar meio a sério que há tempos escrevi que o elefante Salomão (o tal do livro de Saramago) passou no Casteleiro.
Para mim, isso é indiscutível e não pode ter passado de Caria para Sortelha sem passar na Ribeira da Cal, no Casteleiro, na Serra da Vila: é a calçada «romana» (ou medieval? – e aqui começam as dúvidas).

A verdade é que desde esse dia o problema não me tem largado.
E lancei-me numa micro-investigação.
Li bastante.
Reflecti.
Concluí algumas coisas que quero partilhar com o leitor do «Capeia». Fiquei com muitas dúvidas.

Primeiro.
Há factos que provam que os romanos estiveram no Casteleiro?
Há.
Exemplos: foram encontrados em escavações e registados oficialmente pesos de tear e pedaços de loiça fina de tempos recuados – seguramente da era romana –, como os referidos por Pedro Carvalho («Por terras do Sabugal na Época Romana»), e essas descobertas provam-me duas coisas: que os romanos passaram aqui, que se estabeleceram aqui – e que construíram aqui as suas «indústrias» de artefactos úteis, como era seu timbre por toda a parte onde chegaram. Ver Aqui.

Segundo.
Estiveram aqui. Mas: onde? Em que locais?
A acreditar nas investigações deste arqueólogo, que coloca a questão no condicional («haveria»), a verdade é que parece provável que nos limites dos actuais concelhos de Belmonte e do Sabugal houvesse um importante vicus (povoado) mesmo ao fundo das terras do Casteleiro, na fronteira com as Inguias, parece.
Outras provas da presença romana por estas bandas foram encontradas em locais como a Quinta do Espírito Santo, Gralhais e a Quinta de Santo Amaro. Esses são os locais da Freguesia do Casteleiro referidos nos registos do Museu do Sabugal. Ver Aqui.

Terceiro.
Parece pacífico e por muitos investigadores aceite que a grande via romana que ligou a Idanha a Castelo Branco, Caria, Sabugal e daí até Ciudad Rodrigo e até Salamanca passou pelo Casteleiro.
O circuito, desde Caria, seria mais ou menos este: Caria, Inguias, Santo Amaro, Ribeira da Cal, Casteleiro, Serra do Mosteiro (Santo Estêvão), Aldeia de Santo António, Sabugal.
Terá sido assim?

Quarto.
Mas aqui cumpre acrescentar uma nota muito importante.
É que para lá desta via eventualmente principal, havia outra: a via secundária que, do Casteleiro (ali por volta da Escola Feminina) arrancava em direcção a Sortelha. Isso é indiscutível.
Ainda lá está, e não tão mal definida como isso: é a Calçada Romana que vai do Casteleiro à Serra da Vila, pelos campos do Marineto e pelas encostas em direcção à Serra da Vila.
No Casteleiro pode pois ter havido um importante entroncamento de vias romanas: uma que vinha do Sul e seguia para a Hispânia; outra que se iniciava nesta, no local em que hoje fica o Casteleiro e seguia para Sortelha.

Quinto.
Ora a viagem do elefante Salomão, na versão de José Saramago, seguiu, quanto a mim, pela via principal até ao Casteleiro e daí subiu a Sortelha por essa outra via secundária.

Gostaria de saber mais sobre o assunto. Mas as fontes são muito vagas. Como disse, alguns investigadores chegam a colocar as questões no condicional – o que retira as certezas da matéria.
Fiquemos pois por aqui neste momento, e continuemos a ler e a reflectir.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes