Deixem-me ser muito sincero. A verdade é que, em toda a minha vida já longa, nem antes nem depois do 25, nunca dei qualquer importância à Câmara do Sabugal. Cresci num ambiente e numa terra em que era assim. Sem desprezo: apenas com indiferença. Só de há uns três ou quatro anos a esta parte é que dou pela existência dessa Câmara.

Durante a minha adolescência, desde que me lembro de ter consciência das coisas, a Câmara do Sabugal não passava do sítio onde tinha de se ir tirar a licença da bicicleta.
Nada de melhoramentos no Casteleiro. Nada de ruas. Nada de jardins. Nada de equipamentos urbanos.
Nada de nada – passe a caricatura, que resulta mais da revolta do que de erro de análise.
Mas sei que para o Soito e não só a Câmara era uma fonte de bem-estar.
Mas nem pensem que me incomodava. Não, nada disso. Tanto se me dava. Para mim, vejam bem, era quase uma lei da vida: a Câmara servia mesmo para dar melhores condições de vida à Vila e, quando muito, ao Soito.
Nem sabia nessa altura que havia um orçamento municipal. Nem imaginava que esse orçamento vinha dos impostos das pessoas do Casteleiro (e das outras, sei hoje).
Meteram a água canalizada e vá lá. Saneamento – nem pensar…
Passaram anos e, depois do 25 de Abril, vieram as juntas democráticas e seus cadernos reivindicativos… Que eu saiba, pouco se alterou. Honra seja feita às Juntas de Freguesia e às suas iniciativas. Porque, por iniciativa da Câmara do Sabugal, nada que se veja. Vieram mais tarde uns dinheiritos para calçadas, caminhos e uns fontanários.
E penso que até há uns três anos atrás, pouco mais do que isso. Mais: nunca tinha visto no Casteleiro as autoridades civis locais. Só mesmo os guardas da GNR – que, estranhamente, sempre me foram ou neutros ou mesmo simpáticos, por mais estranho que isso hoje me pareça.
Depois criámos no Casteleiro o Centro de Animação Cultural. Era uma boa ocasião para a autarquia mostrar que valia a pena pertencer ao concelho. Mas nada, ou quase nada.
E assim tem sido a minha vida toda: nem dou pela existência da Câmara do Sabugal.
Logo eu que dedico a minha vida quase toda ao Poder Local.
Ora, bolas!
Quem me dera poder vir aqui elogiar a atitude da Câmara do Sabugal para com o Casteleiro a vida toda.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes