Viajamos pelas estradas de Portugal, aliás geralmente de muito boa qualidade, e assustamo-nos com a velocidade estonteante com que alguns carros ligeiros circulam e com as manobras perigosíssimas que muitos condutores impunemente praticam, fazendo perigar a segurança de todos os que usam a via pública.

Ventura Reis - TornadoiroEstamos em tempos propícios ao desrespeito pelas regras, ao desafio à autoridade e à desconsideração pelos bons conselhos. Por mais propaganda e reclames que se façam na televisão, na telefonia e nos jornais em favor do bom comportamento de quem guia automóveis, o certo é que os acidentes não param de aumentar, continuando a marcar tragicamente a sociedade.
Por maiores que sejam as multas, os avisos de atenção e a intolerância para com os prevaricadores, o certo é que continua a haver quem faça orelhas moucas, praticando todo o género de patifarias. E o grave é que na maior parte dos casos os acidentes são trágicos para quem vai no seu sossego e com as suas cautelas na estrada, por não estar livre de que um tresloucado se lhe atravesse no caminho e lhe provoque a desgraça.
Tudo o que circula na via pública deveria ser fiscalizado com rigor, seja carroça de tracção animal, velocípede ou até o simples caminhante que vai em passeio ou em peregrinação. Aqui as autoridades não deveriam ter mãos a medir.
Noutro tempo era comum ver nas estradas os guardas caminhando em patrulha, seguindo um em cada berma, sempre atentos às movimentações dos veículos. Quando qualquer motorista se apercebia da presença dos guardas, tomava postura ao volante, corrigia a velocidade, mantinha-se à mão, e sentia um calafrio enquanto passava pelas autoridades. Seguia depois com cuidados redobrados, não fosse deparar-se com outra patrulha, porque antigamente as estradas e os caminhos andavam pejados delas.
O rigor dos tempos antigos era até para com a circulação de carroças puxadas por animais. O Código de Viação e Transito era rigoroso na definição de regras para a circulação dessa classe de veículos e a sua fiscalização era especialmente exigente. Como curiosidade refiro algumas regras desse código de viação antigo referente às carroças que circulavam na estrada.
Carroça detectada a circular sem estar registada era apreendida e o proprietário pagaria multa de 100 escudos. A falta de colocação da chapa com o número de registo na Câmara Municipal era motivo para multa de 25 escudos, no mesmo incorrendo o carroceiro que não tivesse equipado o seu veículo com travões ou o que, estando incorporado num comboio de carroças, não guardasse distância superior a 25r metros do veículo da frente. Caso a carroça tivesse largura superior ao legalmente permitido, à mesma era aplicada multa de 100 escudos. Se a pressão sobre o solo fosse superior a 150 Kg por centímetro de largura do aro das rodas, a multa era de 50 escudos, ao mesmo se sujeitando o desleixado que deixasse arrastar a carga pelo solo.
O rigor das leis e o empenho de antigamente na fiscalização do seu cumprimento faziam com que as mesmas fossem respeitadas, assim se evitando a desregulação e a desgraça que hoje impera.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

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