Era uma vez um certo país longínquo, em cujo interior profundo havia uma pequena e histórica aldeia.

D. Quixote

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaI – D. Quixote – O que é isto?

(A Leonardo D’Avinci – Sabugal)

Nos tempos medievais dos campeões andantes,
E das baladas como a dom bom rei de thule,
Andava D. Quixote em busca de gigantes,
Magro, tristonho, ideal, crente Fausto do Sul.

Batalhador juiz da Virtude e do Crime,
Defendendo o oprimido, a mulher, o ansião,
Corria o mundo assim, ridiculo e sublime,
Em seu magro corcel, sob arnez de cartão.

Cheio de tradições, o velho mundo absorto,
Da banda do meio dia, ouvia o seu tropel.
E como insectos vis sobre um carvalho morto,
Riam as multidões do ultimo fiel.

Ia triste a cismar, com a alma abatida,
Nos caminhos do mal rasgando as ilusões
Magro Fausto do Sul, buscando a Margarida
Cheio de apupos vis, d’escarneos e irrisões.

Vinha de batalhar espancado e abatido,
Cheio de contusões e lodos d’atoleiros,
E ao pé montado um burro, e o escudo já partido,
Sancho Pança a Matéria , e o rei dos escudeiros!

Vinha sereno e grave, escarnecido e exangue,
Emagrecido e calmo em meio dos estorvos,
-Vinham ladrar-lhe os cães, e pressentindo sangue,
Grasnavam-lhe em redor bandos negros de corvos.

Sancho Pança fiel, vasculhava a escarcela,
E ascultava a borracha emudecida enfim;
Enquanto o herói cismava, inclinado na sela,
Na conquisa ideal do escudo de Membrin.

Paravam aldeões, lavradores crestados;
Vinham à porta as mães, fiando linho fino;
E os magros charlatães viam passar, pasmados,
Na sombra d’um cavalo o extremo paladino.

Dançavam os truões; as suas enxurradas
Com a lodosa voz, perguntavam: Que é isto? –
Satan n’um coruchéu, dizia às gragalhadas:
– Ó campeão do Bem! Ó vitima de Cristo!

(Gomes Leal, in Claridades do Sul)

II – Por Terras De Riba-Côa

Fui a Riba-Côa em trabalho. À espera tinha o Romeu e a Talinha com quem jantei na Ramitos, nos Fóios, na companhia de uma simpática família de emigrantes. O cabrito assado, acompanhado de um molho vinagrete, estava divino; o vinho bom, da casa, na temperatura certa; os companheiros de mesa, hospitaleiros e simples, como é costume da gente da raia, admitindo sem cerimónia um convidado de última hora.
No dia seguinte, pela manhã, uma visita ao museu do Sabugal, onde se pode ver uma boa exposição de pintura sobre a Capeia, de Alcino Vicente, com bastante prefusão de cor e movimento. O espólio do museu está bem organizado, também é digno de visita, e abarca da pré-história aos tempos modernos. Um pequeno reparo: Uma chamada para um fotograma de monumento do acervo do museu de Vilar Maior, como sendo uma «alminha popular» devia ser corrigida para «estela pré-histórica». Nesse dia o almoço foi na Trutalcôa, em Quadrazais, com o Sr. Presidente da Câmara. De entrada umas trutas de escabeche a abrir o palato a um tinto Penca; de seguida uma saborosa posta de vitela, tenrinha, assada na brasa, para terminar o vinho. De sobremesa, um queijo semi-curado, acompanhando um La Mancha tinto. O resto da tarde, passou-se em conversa amena, a dois, pelo viveiro, à sombra do arvoredo, e regresso ao Sabugal.
À noite, o excelente jantar na Casa do Castelo, na companhia do Romeu e da Talinha. Uns lombinhos de pescada fritos, acompanhados de arroz, salada de tomate e pimento em conserva; o vinho, um tinto Bons Amigos, da adega das Cortes, Leiria, oferecido pelo almirante Manuel Raúl. A conversa foi sobre diversos assuntos culturais do concelho: O novo livro do professor Jorge Martins, que vai sair em colaboração com o Kim Tomé; a próxima visita particular do Manuel António Pina aos seus amigos Talinha e Romeu, para matar saudades da casa onde nasceu; o episódio da senhora judia, filha de um alto dignatário das Nações Unidas, que chorou convulsivamente junto ao armário e prova a cada vez maior internacionalização da casa; a visita do Joaquim Pinto de Sousa e do Joaquim Tenreira para meados de Agosto; e outros assuntos a que a discrição de uma cúmplice amizade impõem o manto da reserva.
No dia seguinte, depois de alinhavado o assunto que me trouxera, passagem pela Casa do Castelo para a despedida: Dois dedos de conversa, a compra de dois números da revista Sabucale, algumas compotas e um licor, e enquanto a Talinha atendia uma arquitecta e pintora Lisboeta, excelente freguesa que voltará pelo fim de ano, eu tentei despachar um casal de funcionários de um organismo internacional em Genebra, que me exigiu, na hora, uma palestra abreviada sobre o criptojudaísmo, a emigração safardita para a Holanda, Brasil e colónias da Nova Inglaterra e sobre a obra do resgate.
A saída foi por Sortelha, para agradecer à Nide o licor, e de onde parti carregado com mais um licor e compotas e deslumbrado com a agradável surpresa da ermida árabe, convertida à invocação de S. Cornélio, de arquitectura semelhante das que existem em Alvor, Algarve, à entrada da aldeia, do lado direito da estrada que vem do Sabugal.
Por fim, um desvio por Manteigas, que se pretendia breve, mas que as lembranças da infância e a amizade antiga e fraterna do Luís e da Fernanda prolongaram agradavelmente até à noite, em volta de uma boa mesa e à mão de uma boa garrafeira de Quinta Dos Termos.
A chegada a Leiria foi penosa, pela madrugada, e com mais um queijo da serra na bagagem!…
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com