Há umas dezenas de anos, tudo isto era muito forte, muito vivo. Atenção: sempre na brincadeira. Nunca nada para ofender. Mas havia um certo sabor irónico na maioria das formas de lidar com as terras vizinhas.

O tema que hoje escolhi não me é fácil de «descascar».
Mas tem de ser. É justo que faça esta catarse, arquivada há dezenas de anos.
Cada terra terá o seu uso e, com muita probabilidade, estas mesmas ideias e formas de se referirem aos vizinhos, noutras aldeias, têm outras expressões, exactamente ao contrário…
No Casteleiro, quando eu era miúdo e jovem, a maneira como as pessoas se referiam e me ensinavam a pensar nas terras vizinhas era incrível.
Hoje, olho para trás e penso que havia pouca solidariedade inter-aldeias. Diria mesmo: havia uma certa rivalidade.
Por exemplo (e que me perdoem os vizinhos: tenho amigos em todas estas e muitas outras aldeias, claro):
Sortelha só tem barrocos / A Moita, casarões / Casteleiro, lindas moças / Vale de Lobo, paspalhões.
Coisa horrível de se dizer. Mas dizia-se. Não vale a pena esconder. Sempre me pareceu incorrecto. Então, pelo sim, pelo não, falo disso hoje aqui e peço desculpa às pessoas desse tempo: da Moita, de Sortelha, do Vale da Senhora da Póvoa – e aproveito o facto de poder dizer hoje, finalmente, 50 anos depois, que isto estava errado…
Mas a forma como nos referíamos às pessoas das terras vizinhas também tinha algo de «chato». Vejo isso hoje assim.
Por exemplo: se chamar quadrazenhos às pessoas de Quadrazais não será muito mau, já referir-se aos «farrapeiros» do Dominguiso (os senhores que vinham lá ao Casteleiro comprar tecido velho feito em fitas para fazerem mantas de farrapos e passadeiras novas), enfim… era um bocadinho depreciativo, acho eu.
Por razões outras, as pessoas da Covilhã eram os «chazistas» (estão a ver? Uma pessoa beber chá – coisa horrível…).
Para as pessoas do Casteleiro, todos os habitantes das terras que ficam para lá do Sabugal até à fronteira são os arraianos.
Todas as pessoas que vinham ao Casteleiro vender mercadorias passadas à socapa na fronteira (contrabando) eram os contrabandistas.
Por vezes, as palavras contrabandista, arraiano e quadrazenho eram mesmo usadas umas pelas outras, sem distinção.

Enfim. Coisas de outros tempos. Outras mentalidades. Outras vivências. Outras posturas.
Hoje, com mais acesso, há mais entendimento da vida regional como um todo – acho eu.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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