O entardecer já pouco demorará. A noite não está longe. Ela virá como se viesse cansada tombando vagarosamente, fazendo crer que tudo ficará sob a penumbra. O sol vai, portanto, desandando, quase de todo, e a tardinha há-de esvair-se.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Sento-me. Fico sentado cá fora, á porta, na normal comodidade de um banco de pedra que corre a parede da casa. Por cima os fios da electricidade prometem-me que a luz não findará.
Mesmo que não quisesse, tinha, agora, que olhar para onde, sempre olho.
E vejo. Vejo num perto curtíssimo, casinhas graníticas e nuas. São poucas, pouco mais de uma vintena. Algumas só já mostram o telhado castanho escuro. O resto já começou a ir-se da vista com o esmorecer da luz.
Para onde olhe, então, estende-se a solidão dos campos já algo escurecidos, e estende-se, também, o silêncio, um silêncio que cai docemente por vales e cabeços.
O silêncio já principia a dormir e dormirá profundamente.
Num longe um pouco mais longínquo, apesar da escassez da luz, observo o Monte que em breve se esconderá na noite, noite que transportará o breu e encobrirá todos os brilhos e todas as cores da natureza.
Mas, com a noite, não termina tudo, ainda que o silêncio se dilate. Na noite predomina, de facto, o essencial. Não se extingue o pensamento nem se esvaziam as palavras. Pelo contrário, a noite poderá rechear palavras e prenhar pensamentos.
Mas, o Monte quer, hoje e agora, despedir-se.
Olho-o pela derradeira vez porque ele partirá em breve. Partirá e só regressará com a luz. Olho-o como se olhasse para dentro de mim. Aliás, ele habita-me.
Chegam, então, as memórias e confundem-se com pedaços de existência. Todo o contexto se adapta à cor da minha alma. Ela é da cor da minha idade, da cor do tempo que vivo mesmo já tendo sido da cor do tempo que vivi.
Por aqui existiu passado, sim senhor. Há vestígios. Há provas. E se os vestígios amarelecerem não empalidecerão tanto que façam desaparecer as recordações. E recordar é viver, viver outra vez. Na recordação é como se vivêssemos movendo-nos entre sombras, entre emoções, entre memórias.
Por isso me recuso a aceitar que com o passar do tempo, as perdas se façam definitivas. E, não acredito também que o presente se afunile. Antes, os tempos nos trarão presentes sucessivos, diferentes, influenciados por diferentes passados mas, sempre disponíveis para gerar novos futuros. Nós teremos, apenas, que ser conscientes. Não poderemos ser como crianças assustadas, perdidas, a tentar juntar pedaços de vida, para reconstruir, para influenciar o advir. Nada disso. O passado, justa medida do tempo vivido, suporta presente e futuro e, estes terão almas de outras cores e hão-de trazer, à mistura novos tempos.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo