Será que viver honestamente se tornou inútil neste meu País? Tudo leva a crer que sim, mas o pior está para vir, com a brutal austeridade que nos vai ser imposta, nessa altura será o salve-se quem puder, vai ser o reino dos corruptos, dos mentirosos, dos oportunistas, dos ignorantes, dos servis, dos que não têm pinga de escrúpulos, dos tais «parasitas improdutivos», dos que se vendem a quem der mais, dos partidários de todos os partidos e dos discípulos de todas as ideologias, daqueles que são a negação mais absoluta do que é a Democracia.
De fora, virão as ordens e as orientações para a nossa economia e para a nossa Democracia, não virão ordens para mudar mentalidades, isso é impossível.

António EmidioO tecido social português está infiltrado por toda a espécie de marginais de «colarinho branco», desde o poderosíssimo corrupto, até ao simples «fala barato», cuja tribuna de onde fala é o balcão da taberna. São aceites e respeitados pela sociedade, isto acontece porque esta mesma sociedade se encontra numa crise moral e social, assustada por um holocausto económico. Uma atmosfera de desilusão invadiu-nos, todos estamos desiludidos, o nosso País está dominado pelo materialismo, pela violência, pela ausência de justiça, pela lei do mais forte, pela corrupção e pelo cinismo. Por mais absurdo que pareça, tudo isto tem origem na «Pax Americana» que nos últimos anos se acentuou em todo o Mundo, depois da Guerra Fria, quando a família Bush, Bush I e Bush II, juntando a estes, Bill Clinton, anunciaram a Nova Ordem Mundial. Quer queiramos, quer não, todos os habitantes da terra nos transformámos em súbditos dos Estados Unidos. A prova mais evidente desta situação é que dependemos mais do que dizem e fazem Wall Street e a Casa Branca, do que o que dizem e fazem os nossos governantes. Isto talvez nunca o tenha dito esse Oceano de saber que é o professor Marcelo no canal de televisão onde fala. Mas esse Oceano, infelizmente para quem o ouve, só tem cinco centímetros de profundidade.
Aliás, a Globalização é o acentuar do poder dos Estados Unidos e a formação de outros imperialismos que com o caminhar da história irão substituir esse poder Estado Unidense.
O actual momento histórico que nos está a tocar viver, a nós portugueses, é um momento de angústia, próprio de uma época cansada. Para encher este vazio espiritual, os portugueses procuram o futebol, as novelas, as revistas do «beautiful people», e outros entreténs modernos, vazios de qualquer sentido. Assim não conseguem fugir da frustração que esta sociedade Neoliberal e de consumo lhes transmite. E a Democracia portuguesa em que se transformou? Transformou-se numa Democracia sem politica, sequestrada por potências estrangeiras, isto conduz à marginalização dos políticos por parte do eleitorado. Democracia não pode ser outra coisa que o governo do, e para o povo, nunca como agora, à margem e contra o próprio povo.
Aqui na Cidade do Sabugal, quando passo diante da capela do Senhor dos Aflitos, cada vez vejo mais gente ajoelhada a orar, cada vez vejo mais velas acesas e flores. O significado? As pessoas têm medo, as pessoas voltam-se para Deus porque aí encontram uma fonte de consolo e esperança. Talvez aqueles que estão a regressar ao Concelho, vindos das grandes cidades porque a crise os lançou no desemprego ou no desespero, vejam nele também esperança para as suas vidas (é engraçado, os Sacrossantos Doutores da Lei e os Politicamente correctos, nunca nos falaram nesta gente, olhai que podem dar votos…). Outros e outras, mais pragmáticos, procuram a «esperança», não em Deus, nem no Concelho que tanto “amam”, procuram-na e conseguem-na ladeando «políticos», cujo amor à Democracia depende do dinheiro que ela lhes propicia e, cuja ambição desmedida e boçal é superior à sua capacidade. «Políticos» que precisam de «amparo» quando saem á rua, ou na comunicação social, pedindo o voto popular, daqueles que não sabem que o único «amparo» que um politico deve ter quando se dirige ao povo é a sua ética, a sua moral, o seu humanismo e o seu amor à Liberdade. Mas os tais pragmáticos, ou pragmáticas, preferem o tipo de políticos que lhes enche os bolsos de dinheiro e os ouvidos de promessas, nunca os governantes honrados que reclamam o mesmo comportamento ético que exigem a si mesmos.
Vai ser sempre assim? Não querido leitor(a), há épocas assim, e esta é uma delas. Prepare-se para ver singrar aqueles e aquelas que numa época diferente, seriam umas obscuras personagens, ou até estariam numa cadeia.

Soube que uma «elite» concelhia, numa das suas libações, referiu-se a mim com uma ameaça velada, dizendo que alguém que trabalha na Câmara não pode escrever certas coisas… Tenho a dizer-lhes que ao fazer-me escritor, não foi para bajular os grandes e poderosos, sejam eles de onde sejam, por isso me atenho ás consequências. Podem retirar-me das tribunas concelhias, a sua comunicação social, como já aconteceu, podem mandar-me para o desemprego ou perseguirem-me moralmente no mesmo, mas uma coisa digo: nunca serei rei do meu silêncio, nem escravo das minhas palavras.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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