– Você?! Tu disseste «você» à tua mãe?
– Disse. Tem algum mal?
– Mas isso é uma grande falta de educação. Você?! Não digas isso à tua mãe, por favor!

Este diálogo podia acontecer hoje nas ruas do Casteleiro. Esta questão das formas de tratamento é muito importante nos meios pequenos. E no Casteleiro mais do que noutros locais que conheço. Há um grande respeito pelos mais velhos, sobretudo os familiares chegados: avós, pai, mãe, tios.
Claro que muita malta mais nova, de há 30 anos a esta parte, e bem, furou as convenções todas – sobretudo os que foram criados em cidades ou na França e vai de se dirigirem aos avós com toda a descontracção:
– Ó avô, eh, pá, tu não vês que isto são filhós?
Isto em mim era impensável. Mas há miudagem que assim fala – e da minha parte nada contra, desde que não signifique também falta de educação ou ligeireza na relação cidade-campo – se é que me faço entender…
Mas esse é outro ramo: as novas mentalidades impuseram-se e ninguém leva a mal.
Mas vá lá eu tratar a minha mãe por tu ou vá lá eu dizer «Você» à minha mãe ou ao meu tio. Não seria capaz. Dito por mim, nem me soa bem, sinceramente. Mas não me choca nada que quem assim fala fale assim: hábitos são hábitos.
Mas o que aqui quero trazer são os tratamentos da minha meninice.
A regra básica é muito simples e todos a aprendemos: aos mais velhos dizemos «vossemecê», uma palavra que nos dicionários antigos vinha explicada como sendo uma forma simplificada de «Vossa Mercê», o modo de tratamento dado aos nobres de antanho.
A palavra «você», que é claramente uma redução de «vossemecê», só a podíamos usar para pessoas da mesma idade ou pouco mais velhas. Mas nunca para os familiares chegados: para esses, mesmo que quase da mesma idade, ninguém podia nem pode deixar de usar o «vossemecê».
Dantes, no Casteleiro, havia outras palavras bem marcadas pelo respeito e distância ou proximidade nas formas de tratamento.
Trata-se da forma de tratar as pessoas do sexo feminino, consoante a sua «classe social», digamos assim, e de acordo com a relação que o autor do tratamento tinha com cada uma delas:
– A Senhora Dona Fulana de Tal era um tratamento dado a uma ou duas senhoras muito, mas muito ricas para os padrões da época (anos 40-50 do século XX).
– A Dona Sicrana era o tratamento dado a algumas senhoras da classe média.
– A Senhora Tal era como se devia tratar a maioria das pessoas – digamos – remediadas da aldeia.
– A Ti’ Beltrana era a fórmula geral – e a que mais me agrada registar. Ti’ é a corruptela popular para Tia. Mas este «Ti’» («Tia») nada tem a ver aqui com um qualquer grau de parentesco. Não. Ti’ são quase todas as mulheres da minha infância na minha terra. Chamava Ti’ a mais de 90% delas. E era bom. Porque aquelas a quem chamava Ti’ eram exactamente as que eram capazes de me deitar a mão e proteger-me se a minha mãe me quisesse bater depois de eu matar por esmagamento os pintainhos que se tinham metido à minha frente na minha correria de seis anos malucos e desvairados… Que saudades dessas Ti’s todas, Casteleiro!
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes