Não foi por acaso o relevo que demos à Ordem do Pereiro, no contexto da ocupação Leonesa de Riba-Côa. Esta ordem, posteriormente designada de Alcântara, tinha possessões no Médio Côa e na Estremadura castelhana, na Serra da Gata (Elges, Valverde e Navas Frias) e na Serra de S. Pedro de Albuquerque, a Norte de Badajoz, o que implicaria, como veremos adiante, uma acção preventiva de D. Dinis, para garantir a retaguarda da hoste portuguesa, aquando da campanha de 1296, também chamada, da Guarda, sobre Valladolid.

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaAs fontes portuguesas, nomeadamente a Crónica de Portugal de 1419, a Monarquia Lusitana, e a Crónica de D. Dinis, a Crónica Geral de Hespanha, dão como motivos para a campanha de 1296, os seguintes:
a) O não cumprimento da clausula de casamento da nossa infanta D. Constança com Fernando IV, acordada em 1291 e reafirmada em 1295.
b) A não demarcação da fronteira, conforme o previsto na trégua de Setembro 1295, em Ciudad Rodrigo.
E estas são, resumidamente também, as razões que a nossa historiografia dão para a campanha de 1296.
Contudo, alguns autores, como o espanhol Manuel Gonzagalez Jimnez, dão como motivo a aliança de D. Dinis com Jaime II de Aragão (casado com D. Isabel, irmã deste) para a quebra de hegemonia do império de Castela, que reunira, sob o domínio de Afonso X os reinos da Galiza, Leão e Castela, ou, como pretende também o espanhol Gonzales Minguez, o recurso de D. Juan face às dificuldades aragonesas no cerco de Mayorga Del Campo, o que está mais de acordo com a crónica de Fernando IV, de Fernán Sanchez.
O contexto em que se deu a campanha foi o do «pleito sucessório» espanhol. Morrendo Fernando de Lacerda, filho primogénito de Afonso X, originou-se a guerra civil de 1282-1284 em torno desta descendência pela coroa de Leão e Castela, entre Sancho, filho também de Afonso X, e Afonso, filho de Fernando de Lacerda, acabando por suceder aquele, com o nome de Sancho IV, a Afonso X.
Entretanto, falecendo Sancho IV, doze anos após, deixando como herdeiro uma criança de dez anos, fruto do seu casamento, canonicamente anulado por motivos de parentesco não dispensado entre nubentes, com Maria de Molina, que implicava a bastardia do herdeiro, D. Fernando IV, suscitando novamente a legitimidade de Afonso de Lacerda, que Aragão apoiava militarmente.
Em campo surgiu também o Infante D. Juan de Lacerda, igualmente filho de Afonso X, que exilado em Granada, procurou o apoio de D. Dinis, pelo tratado da Guarda, de Julho de 1295, de que saiu a nossa declaração de guerra a Castela, mas da qual não resultaria qualquer acção armada, apesar da mobilização da hoste, porque seria assinada a trégua de 6 de Setembro de 1295, de que resultou a reafirmação do referido acordo de casamento (previsto no acordo de 1291), a demarcação da fronteira para fim desse ano, e a entrega a Portugal das vilas de Noudar, Serpa, Moura e Mourão, Aroche e Aracena.
Em Janeiro de 1296, Jaime II formaliza o seu apoio a Afonso de Lacerda e patrocina um acordo deste com seu irmão, D. Juan de Lacerda, dividindo o reino de Castela, cabendo àquele Castela, Toledo, Córdova, Múrcia e Jaén, e a este Leão, Galiza e Sevilha, o que torna inevitável a hostilidade de Fernando IV.
Por sua vez, D. Dinis reúne nesse Verão, a sua hoste na Guarda. O conluio com Jaime II é evidente, pois a própria declaração de guerra deste a Fernando IV, efectuada em Março, fez-se em nome de Aragão, dos rei de França, Portugal, Sicília, Granada e dos Infantes de Lacerda.
A campanha começou, da parte de Aragão, na Primavera de 1296, dirigida pelo Infante D. Pedro, avançando de Ariza até Leão, onde se juntou a D. Juan de Lacerda, e depois até Sagun, indo cercar, de Maio a 28 de Agosto, Mayorga Del Campo, praça estratégica na defesa e Valladolid, cidade onde se encontravam Fernando IV e Maria de Molina.
Entretanto, Jaime II invade o reino de Múrcia, que conquista, enquanto Muhamad II de Granada toma Quesada e Alcoudete e D. Dinis inicia a sua aproximação à Guarda, desde Santarém, passando por Coimbra, onde se detém de Junho a Agosto.
Sabemos que entre 13 e 15 de Setembro D. Dinis se encontrava na Covilhã, data a partir da qual não há qualquer produção de cartas régias, por um período de cerca de mês e meio, que é o tempo que, com toda a probabilidade, durou a campanha.
O início da mesma, já depois do levantamento do cerco de Mayorga, devido à peste, prende-se possivelmente com o facto de as forças aliadas ainda posuirem alguma vantagem territorial e numérica, e para se não desperdiçarem os recursos que já desde 1295 vinham sendo reunidos para esta guerra, com a eminente entrada o Inverno, que inviabilizaria qualquer acção.
Previamente, D. Dinis reparara todas as fortalezas da fronteira, do Minho ao Alentejo; reorganizara a estrutura do comando militar; salvaguardara a rectaguarda do exército, assegurando a neutralidade da Ordem de Alcântara (antiga Ordem do Pereiro), que tinha domínios em Riba-Côa, com a doação da Igreja de Santa Maria de Seia e pela compra e ocupação de Coria, praça-forte nas imediações de Alcântara; tornara vassalo D. Sancho de Ladesma, senhor das vilas do Alto-Côa; reforçara a linha da raia com Ordens militares fiéis, como os Templários em Vila de Touro, e a Ordem de Avis, a Sul.
Partindo da Guarda, depois de meados de Setembro, em direcção a Ciudad Rodrigo, Salamanca, onde se juntou aos aliados, progrediu para Tordesilhas, detendo-se em Simancas, numa tentativa de pressionar Valhadolid, em jornada de cerca de 300 Km, em que gastou perto de 15 dias, atento o ritmo de progressão de um exército medieval daquelas características, enquanto as milícias de Elvas conquistavam Campo Maior e Alvalade, e a Ordem de Avis travava, em Arronches, a contraofensiva de Alfonso Perez Guzmán, Mestre de Santiago, e a frota Portuguesa vencia a de Sevilha, ao largo de Sines.
Ou por as forças invasoras não serem suficientes para acometer e sitiar Valladolid, ou porque alguns nobres comprados por Fernando IV, que entretanto conseguira cunhar moeda e recrutar novos contingentes e subornar a nobreza, abandonarem com as suas mesnadas os infantes de Lacerda, D. Dinis retirou para Medina Del Campo, na terceira semana de Outubro; mas porque D. Afonso e D. Juan de Lacerda, já sem apoios, retiraram para Aragão e Leão, respectivamente, D. Dinis acabou também por retirar para Portugal, pilhando e arrasando tudo o que encontrava no caminho.
Outro motivo para a retirada, e que aparece em pouco estudiosos da matéria, é que teria havido um acordo de Fernando IV e Maria de Molina com D. Dinis, para que este partisse (Crónica Geral de Hespanha d 1344, Conde D. Pedro, cap. DCCXIX p. 245 e Crónica de D. Dinis, Rui de Pina, cap. IX, p.247).
É certo que tanto o Conde D. Pedro e Rui de Pina ao referirem apenas que «pediram a D. Dinis que partisse», omitem qualquer contrapartida.
Mas Fernan Sanchez é mais explícito ao referir que D. Dinis recebeu um mensageiro que lhe «pediu que fosse, que se lhe entregaria Castelo Rodrigo, Alfaiates e Sabugal».
E o que sabemos das fontes é que no início de Novembro de 1296 a hoste de D. Dinis entrou em Castelo Rodrigo, no dia seguinte seguiu para Alfaiates, e depois para o Sabugal, ocupando as principais praças de Riba-Côa, sem qualquer resistência ou as violências que cometera na retirada, segundo a Crónica de D. Fernando IV, Cap.II, P.36-37.
E a maior prova de que a entrada foi pacífica e sem qualquer resistência, é que D. Dinis nem precisou de se demorar por Riba-Côa, pois a oito de Novembro Já se encontrava em Trancoso, onde emitiu as primeiras cartas régias após mês e meio de silêncio, e confirmou os privilégios das vilas de Riba-Côa.

Bibliografia:Francisco Brandão, Monarquia Lusitana, Quarta parte, INCM, 1974, fols 247 e ss.
Humberto Baquero Moreno, As relações de Fronteira no século de Alcanizes, in Jornadas Luso-Espanholas de Hist. Medieval, Actas, Vol. I, Porto, FLUP, 2000, p.644 e seg
César Gonzales Minguez, Fernando IV, Plascência La Olmeda, 1995, p. 38
José Augusto Pizarro, D. Dinis, Lisboa, C List. 2005, pp. 108 e seg.
Fernando Sanchez, Crónacerda de D. Fernando IV, Tomo I, Madrid, Real Academia de História, Cap. II pp. 33 e seg.
Manuel Gonzalez Jimenez, Las relaciones entre Portugal e Castilha durante el siglo XIII, IV jornadas luso-Espanholas de Hist. Medieval, Vol. I, Porto, FLUP, 2000, p.16
Crónica geral de Espanha, Lindley Cintra, 1990, cap.DCCXIX, pp. 244 e seg.
Crónica geral de Espanha, 1344, cap. DCCXIX p. 245
Visconde de Santarém, Corpo Diplomático Português, tomo1, Paris, Ailland, 1846, p. 46 e seg
Jerónimo Zurita, Anales de La Corona de Aragón, Zaragoza, 1610, Tomo I, Livrp V, fol. 367
Crónica Del Rey D. Dinis, Porto, Lello & Irmãos, 19777, cap. VIII, p. 246 e seg
Vergínia Rau, Itenerários Régios Medievais I, Itinerários Del Rey D. Dinis, 1279-1326, Lisboa, Instituto de Alta Cultura, 1962, pp. 46 e seg.
Saúl António Gomes, Doc. Medievais de santa Cruz de Coimbra, IANTT, in estudos Medievais, n.º 9, 1988, doc. 22 p. 95-96, doc. 24 p. 96-97.
Mario Barroca, D. Dinis e a Arquitectura Militar Portuguesa, in IV jornadas luso-Espanholas de Hist. Medieval, Vol. I, Porto, FLUP, 2000, pp.801-822
Gama Barros, História da administração Pública em Port. dos séc. XII a VV, vol. V, Lisboa, Sá da Costa, 1948, p. 232.

«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

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