Enquanto por cá discutimos quem ganhou o debate entre Dupont e Dupond, na noite de sexta-feira passada, ou então a televisão transmite directos sobre a chegada da equipa do Futebol Clube do Porto, após a sua vitória na Liga não sei de quê, os nosso vizinhos espanhóis estão a dar uma lição ao mundo.

João Aristides DuarteAcampados há vários dias na Puerta del Sol, em Madrid, grupos de manifestantes jovens e menos jovens estão a fazer uma Revolução. Essa revolta já alastrou a diversos países europeus e de outros continentes.
Ninguém os demove da Puerta del Sol, que se transformou na Praça Tahrir da Europa. Apesar de o Governo ter proibido essas manifestações, alegando que se estava em período de reflexão eleitoral, o certo é que os manifestantes não desmobilizam. Sabe-se que os Sindicatos da Polícia espanhóis já declararam que não vão
O que pedem os manifestantes na Puerta del Sol? Coisas tão simples como «Liberdade de Expressão», «Reforma da Lei Eleitoral» e «Nacionalização da Banca».
Em alguns dos cartazes que os manifestantes exibem pode ler-se: «Assim, não!», «Banqueiros ladrões», «Povos da Europa, Levantai-vos» ou «PP e PSOE, o mesmo capital».
Os manifestantes começaram por ser uma espécie de «Geração à Rasca» espanhola, mas a revolta depressa alastrou e comprometeu outras gerações.
Realmente é de admirar que surja na Europa um cartaz onde está escrito «Liberdade de Expressão», uma vez que essa mesma Europa se diz tão democrática. Cartazes desse teor fazem-me lembrar os que eram exibidos pelos manifestantes pró-democracia, nos idos de 1989, na RDA.
Afinal, parece que, por esta Europa tão civilizada e tão democrática, algo também está podre. É bem verdade que, quando se verificam tantas situações escandalosas, como os prémios aos gestores, as benesses aos banqueiros que arruínam a economia, as pessoas se revoltem… Os partidos do «arco da governação», em Espanha (sempre o PP ou o PSOE) acham que está tudo anestesiado com a «bola» e nunca pensaram que isto fosse mesmo a sério. Mas está a ser.
João DuarteÉ por serem sempre os mesmos a governar, em Espanha, que se pede a reforma da Lei Eleitoral, de modo a que se termine com esse bipartidarismo que só pode levar à frustração. É aquele estilo de «ora governas tu, ora governo eu», a única coisa que muda são mesmo os «boys», porque de resto é tudo igual. Em Portugal é a mesma coisa. Só não vê quem não quer. Já sobre os «banqueiros ladrões» em Portugal, nem vale a pena falar… O escândalo é tamanho que daria para uma série de Revoluções. Mas os tais “brandos costumes” são capazes de explicar alguma coisa.
No entanto, por cá, as pessoas estão mesmo anestesiadas e não se revoltam. Até tinham mais razões para o fazer, uma vez que irão sofrer com as medidas decididas pela Troika estrangeira e pela Troika portuguesa (PS/PSD/CDS). Serão os portugueses masoquistas? Ou, dito de outra maneira, quando é que os portugueses começam a ser como os espanhóis?
O título da minha crónica tem a ver com a imagem que a acompanha: realmente, eu estou completamente à vontade sobre isso. Desde a época em que pude votar, nunca, «jámé» os partidos do «arco da governação» contaram com o meu voto. E já lá vão mais de 30 anos. Uma coisa é certa: nunca tive, assim, razões para me arrepender do meu voto.
«Política, Políticas…», opinião de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

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