Perante a fugaz passagem do tempo decorre, inevitavelmente, a Primavera e sobra-nos, a nós, a sensação de que o razoável não nos basta. Seria forçoso crer no impossível para que o presente pudesse ser promessa de um futuro melhor. E não se leia, nestas linhas, pessimismo porque eu direi que não, que o não é, que é tão só nua e crua realidade.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Enquanto assim, falar de quê? Talvez falar de algo agradável na tentativa de temperar momentos, alguns momentos destes dias que nos gastam sem que nos ofereçam grande realização.
Então que, ao menos, o meu falar não enfade enquanto me refiro ao mítico ambiente histórico/lendário da zona jarmelista. De facto, por aqui, a história e a lenda amalgamam-se, fatalmente, revestindo-se, ambas, de ambiente austero e, paradoxalmente, suave.
Claro que é difícil ficar indiferente perante uma onda de austeridade granítica tonalizada de cinzento, quase feia, entremeada de verdura frutificante como que propondo um derradeiro e forte apelo à esperança. Repare-se, ainda, no formato terno e feminino do Monte terminado, lá no alto, por dois cimos sugerindo uns seios de mulher. Razões e contrastes capazes de marcar personalidades.
Coloquemos, então, sobre este Monte uma presença histórica de defesa estratégica que assistiu à sucessão dos séculos. Tal historicidade fica provada por dois forais, o primeiro de D. Afonso Henriques e o segundo Manuelino. Também o rei D. Pedro se afeiçoou a estes sítios onde desfrutou encontros amorosos, festas e caçadas. Mas, tais circunstâncias, não podem fazer olvidar o futuro perante a modernidade que lhe pisa os pés. A auto estrada que se lhe estende em frente perde-se numa infindável extensão, sonorizada por uivos ultra velozes de motores acelerados que ligam Portugal ao interior da Europa.
E, sim, é do contraditório que nasce a razão e é no contraste que se constrói o equilíbrio. Não será de esperar que, por aqui, a modernidade, apague a história nem que a história ofusque a modernidade.
No cimo da montanha subsistem vestígios de um castro lusitano e de um povoado medieval que ficarão eternamente ligados aos trágicos amores de Pedro e Inês provavelmente a mais célebre história de amor em Portugal.
De mãos dadas com a história emerge, assim, a lenda (tal como esta) de uma pedra, que o povo crê ter sido a pedra de montar de Dona Inês de Castro. Ao longo dos tempos os Jarmelistas impuseram a eles próprios, a conservação da dita pedra e, para tal, foi correndo a tradição de as noivas pagarem uma tença ao casarem. Ainda hoje é sobejamente conhecida a quadra «Adeus Vila do Jarmelo/ Adeus perda de montar/ Enquanto o Mundo for Mundo/ Dinheiro hás-de Ganhar».
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo