Venho daqui… da base do meu Monte (do Jarmelo) e venho por impulso. Trago o meu Monte comigo e, com ele, trago-me e ao meu mundo.

Martírio de Inês de Castro representado no alto do Jarmelo

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Porque venho? Julgo que por cumplicidade.
Da base do meu Monte gosto de lançar olhares a terras de Espanha. E vejo. Vejo longínquas serranias a terminar longas distâncias cinzentas. Adivinho, então, outros montes. Lá longe, lá onde se esbatem as serras espanholas haverá, certamente, montes diferentes.
Mas sei. Sempre soube que a menos de meio caminho fica a Raia a tal Raia de enigmas, a raia dos Raianos, das heroicidades diárias, dos contrabandos e contrabandistas. A Raia dos dialectos e também das capeias.
Bem mais próximo esvai-se em águas o Rio Côa, o Rio enorme, o Rio imenso da minha meninice. Um Rio que foi minguando, minguando enquanto eu crescia até que chegou ao tamanho real.
Aqui e lá, a dureza da vida, a dureza das gentes, a dureza mais dura da profundeza beirã.
Aqui há mais monte do que rio. Lá há mais rio do que monte.
Daqui são as vacas mansas e os bois pacatos da procriação. O trabalho não os isenta de belezas concursantes. Sim porque aqui o ónus do amanho das terras pertencia-lhes, por inteiro, até há bem pouco tempo. Mas, todas as primaveras há um dia em que o trabalho cessa para que o cume do Monte do Jarmelo se engalane com o concurso do gado jarmelista.
Lá são os touros bravos, nobres e irreverentes mas não menos belos. Tão belos como é bela a agreste beleza selvagem. Lá, se não há concursos, há capeias.
Cá e lá o povo vive e goza estas festas até ao mais íntimo, até ao âmago.
A bravura de lá já se juntou à valentia de cá e o meu Monte já tem uma praça de touros sóbria e granítica (como forçosamente teria de ser) onde o forcão raiano já lida consolidando uma vez mais, em cada vez, a experiência nova de uma capeia arraiana.
Então, de lá e de cá a mesma paixão!
E claro, a fronteira. De lá muito próxima. De cá mais afastada. Lá e cá carismática e determinante.
Depois as amizades, as coincidências e as diferenças (que também unem). Também as vivências enraizadas, as convivências e outras coisas mais.
Quase tudo cumplicidades!
Talvez por isso aqui esteja eu (e sinto-me bem) vindo da base do meu Monte até ao blogue da Capeia Arraiana.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

Capeia Arraiana saúda Fernando Capelo, natural das terras vizinhas ao Monte do Jarmelo e grande amigo das gentes da Raia, que aceitou o desafio de colaborar regularmente neste espaço de opinião livre e responsável, trazendo-nos novas perspectivas, que certamente contribuirão para o debate que regularmente aqui acontece.
plb e jcl