Uma ausência de vontade, uma incapacidade de ver as possibilidades, e mais, uma negação das próprias possibilidades, que explicam como Riba-Côa parou no tempo da sua própria alma e é incapaz de agir sobre o seu próprio futuro.

Campanário - Sortelha

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaPor ocasião do aniversário, Jacinto – da «Cidade E As Serras» – tomado de um grande tédio, apeteceu-lhe ler.
Percorrendo a sua vasta e diversificada biblioteca, não encontrou um único livro que lhe satisfizesse o desejo de leitura, acabando por subir ao quarto, com o jornal debaixo do braço.
O tédio é, como vemos pelo exemplo, uma falta de vontade. E mais que uma falta de vontade, uma incapacidade de ver as possibilidades que satisfaçam a vontade.
Jacinto não tinha vontade de fazer nada. Apeteceu-lhe ler um livro, mas no vasto mundo de possibilidades que lhe oferecia a sua biblioteca, não conseguiu eleger uma única dessas possibilidades.
Segundo Kierkgaard em Ou/Ou, o homem tem a natural tendência para a realização do seu fim, que é a aproximação do Ser infinito, pela vida ética. Esta consciência gera uma angústia, um sentimento positivo provocado pela necessidade de suplantar o estado estético, a sua matéria, finitude, e alcançar o estado ético, mais próximo do seu fim espiritual e da infinitude, que o impele a procurar permanentemente as possibilidades de realização, numa acção sobre o seu destino e o tempo futuro.
O tédio é, como vimos pelo exemplo acima, um sentimento negativo, pelo qual o homem, perante as possibilidades envolventes que lhe permitem a realização do seu fim, nem se apercebe dessas possibilidades. È uma total ausência de vontade, uma incapacidade de ver as possibilidades que lhe permitem superar o estado estético. Uma estagnação no tempo do não ser, uma incapacidade de futuro.
O tédio, como sentimento negativo da alma, anda associado à melancolia, pois esta, mais não é que o sentimento que, perante as possibilidades, as vê, mas se recusa a aceita-las.
O tédio, melancolia e angústia, são, portanto sentimentos muito próximos da alma. Aqueles primeiros, negativos; este, positivo.
O silêncio dos sinos das nossas aldeias, que referi aqui há semanas, no texto sobre a Alma Ribacudana, como caracterizando hoje essa alma, é, para mim, o mesmo que este sentimento de melancolia e de tédio de que falava Kierkegaard.
Uma ausência de vontade, uma incapacidade de ver as possibilidades, e mais, uma negação das próprias possibilidades, que explicam como Riba-Côa parou no tempo da sua própria alma, e é incapaz de agir sobre o seu próprio futuro.
Neste sentido, não concordo com o meu bom amigo Tenreira, quando diz que a minha poesia é igual à de Leal Freire.
A poesia de Leal Freire ainda fala dos tempos em que os sinos tocavam em Riba-Côa; do tempo da angústia existencial, em que o homem ribacudano agia sobre o tempo futuro.
A minha, muito mais modesta, fala do tempo presente; do tempo melancólico, em que os sinos se calaram; do tempo sem futuro; da suspensão existencial do homem ribacudano.
Estamos pois, confessados e conversados!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com