Esta é uma história que aconteceu comigo há uns dias e que me deixou a pensar…

Escadas

Carla NovoComo uma comum mortal trabalho e sou obrigada a fazer descontos para o estado. Então, cheia de vontade e de gratidão por poder pertencer à classe trabalhadora por conta de outrem lá fui, feliz e contente, tratar de assuntos relacionados com o IRS. Entrei na repartição das finanças, alheia ao aspecto degradado e aos rostos amargos – tentando não me contagiar pelo ambiente – até porque estava um lindo dia de sol! – e retirei a respectiva senha. Fui apetrechada de tudo quando pudesse envolver horas de espera e portanto o tempo passou de forma graciosa e até conheci uma senhora cuja filha é inteligente e trabalha para a união europeia! Ok. Tudo decorria muito bem nesta minha aventura pública quando me deparei com alg9o que me arrombou o coração: uma senhora de idade avançada e que mal aguentava o peso da bengala que a sustinha enfiava os olhos pela máquina das senhas só para tentar ver a que deveria tirar. Ofereci-me para a ajudar e como não entendi totalmente qual era o assunto resolvi tirar três senhas diferentes, sendo chamada na que fosse em primeiro lugar! A senhora agradeceu e meteu-se a caminho… do segundo piso. Para choque, pelo menos meu, a dita repartição (e acredito que existam muitas assim) funciona num prédio antigo sem elevador e mesmo para entrar no rés-do-chão é necessário descer pelo menos três degraus. Ou seja, um deficiente motor que se faça transportar de cadeira de rodas, um carrinho de bebé, ou mesmo novos e velhos com dificuldades motoras estão sujeitos a uma sessão grátis de fisioterapia enquanto esperam, pois ou têm a sorte de resolver tudo no rés-do-chão e aí só descem e depois sobem três degraus, ou, têm de se esmerar para escalar os restantes pisos (no total três) do edifício! Enfim, não deixa de ser frustrante saber que os meus descontos (como os de todos os outros) ainda não chegam para elevadores em edifícios de repartições públicas – e também em nada me admirava que o uso destes ascensores acabe num destes dias por ser cobrado aos contribuintes e aos utentes. Resta saber se o bilhete de uma subida e descida é de preço único!
«Jardim dos Sentidos», crónica de Carla Novo

carlanovo4@hotmail.com

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