Hoje há menos pinheiros mansos. Mas quando eu era jovem, havia uma razoável extensão de pinhal manso no Casteleiro, à saída para Caria.

Esses interessantes espécimes, raríssimos na zona, espalhados por uns bons 20 hectares nesse tempo, pertenciam todos a uma só família: os donos da Quinta, propriedade extensa e variada praticamente dentro da povoação, mas dela bem separada por razões económicas e sociais de todos conhecidas e por todos bem sentidas…
Não tenho conhecimento de tamanha concentração de pinheiros mansos que existam ou existissem nesse tempo em qualquer outra freguesia do Concelho.
Para si, leitor mais distraído: não confunda o pinheiro manso com o pinheiro bravo. Desse, há imensidões no Concelho.
Todos os Verões são notícia, infelizmente.
Mas o pinheiro manso na nossa zona é bastante raro.
Mas no Casteleiro havia muitos. Uma árvore arredondada, de «saia» rodada, baixota, simpática.
Já disse: hoje há menos.
Porque muitas das casas construídas naquela área desde finais dos anos 70 o foram no espaço do citado pinhal manso – e à custa das árvores, sacrificadas ao deus construção civil.
Aqui, como em todo o País, como se sabe.
Volto ao facto de o pinheiro manso ser raro na nossa zona.
Tal não admira.
Porque o pinheiro manso é uma espécie originária do Médio Oriente (Turquia, Iraque, Jordânia e, o mais próximo de nós, do Egipto) e, claro, daí espalhou-se por toda a área do Mediterrâneo.
Portanto, climas moderados. E para mim é impossível não pensar que o facto de o pinheiro manso se ter dado bem no Casteleiro se poderá dever ao facto de o clima ali, apesar dos apesares, ser bem mais ameno do que nas terras mais a Norte do Concelho.
Pelas mesmas razões pelas quais se diz que a Cova da Beira começa no Casteleiro, e vai para Sul.

Já agora.
Quem trouxe o pinheiro manso para Portugal? Fenícios? Talvez. Romanos, depois da conquista e romanização de boa parte desse Médio Oriente? Talvez.
Mas esses povos, quando vieram para Portugal, fixaram-se e permaneceram sobretudo no litoral.
Tenho uma hipótese (mera hipótese): o pinheiro manso pode ter sido trazido do litoral para a nossa zona por alguns dos homiziados (condenados) vindos do Sul e que aqui encontraram a estabilidade (e a liberdade) em troca de por cá se fixarem e servirem de tampão contra as incursões castelhanas, na Baixa Idade Média (séculos XIV e XV).
Mas, quem sabe?
Certo, certo, é que a pinha do pinheiro manso é um óptimo combustível – nesse tempo não havia gás, meus senhores, acordem… o pinhão (manso) é saboroso, e é utilizado em doçaria que até dói a alma de tão saborosa.
Mas julgam que naqueles dias dos anos 50 íamos lá buscar pinhão à vontade?
Não. Muitas vezes lá apodreciam aqueles frutinhos e nós, nada.
Coisas da vida de antanho…
Hoje, os poucos pinheiros mansos que restam lá estão ao abandono, praticamente sem dono.
Coisas dos dias que vivemos…
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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