Vinte e um. É este o número mágico, inventado num qualquer gabinete, como se se tratasse da descoberta da pólvora. Será o número do «Joker» do Totoloto? Será o número da terminação da Lotaria? Será o número que corresponde à maioridade, como antigamente?

João Aristides Duarte - «Memória, Memórias...»Qual quê? Este é o número mínimo de alunos que as escolas do 1.º Ciclo podem ter para terem sucesso, segundo decidiram essas «cabeças pensantes» do Ministério da Educação, no ano passado.
Tudo o que for abaixo desse número só significa insucesso educativo e, portanto, encerramento compulsivo das escolas.
Toda a gente pergunta… Porquê 21 e não 18, 19, ou outro número qualquer? As «cabeças pensantes» que decidiram isso lá saberão porquê, mas não explicam nada.
Decidiram, está decidido e ai de quem se atreva a contestar esse número mágico que é logo colocado na galeria das velharias e considerado um «atrasadinho». A malta do PS (também se pergunta como é que gente tão socialista desistiu de fazer o socialismo!!!), completamente cega, sectária e seguidista em relação a este número, não tem qualquer argumento para esgrimir em sua defesa. Mas, defendem o número mágico com unhas e dentes…
Descobriram que, ao contrário do que qualquer pessoa de bom senso sabe, nas escolas onde há mais de 21 alunos se aprende mais, se trabalha melhor e as medidas relacionadas com o encerramento das escolas visam melhorar as condições que favoreçam a promoção do sucesso escolar e o combate ao abandono. O combate ao abandono, perguntarão? Sim, que os do PS não brincam em serviço e sabem bem (só eles) que nas escolas do 1.º Ciclo há abandono escolar. Usam estes argumentos para esconder o único argumento possível de utilizarem, que seria o de se tratar, unicamente, de mais uma das tais «medidas» economicistas. Mas Cavaco Silva também nunca se pronunciou contra o encerramento das escolas, o que leva a crer que ele concorda com essa “medida”.
Numa carta aberta que escrevi, no jornal «Nova Guarda», em Junho passado; ao Dr. Fernando Cabral, ex-deputado pelo círculo eleitoral da Guarda, até referi que o Prof. Carlos Ceia, docente na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, diz textualmente, num artigo do jornal «Público»: «Qualquer professor de qualquer país do mundo sabe que com um grupo de trabalho pequeno as hipóteses de sucesso são muito superiores e só quem está muito, muito distante da realidade da escola pode, com honestidade intelectual, defender o contrário.» Mesmo assim, não há quem tire o número mágico da cabeça do pessoal do PS. O tal ex-deputado teve o descaramento de, no número seguinte do «Nova Guarda» escrever que há que respeitar as opiniões diferentes, não contestando um único dos meus argumentos, nem sequer as palavras do Prof. Ceia. Como político mainstream que é até se deu ao luxo de me tratar por Dr. João Aristides Duarte, quando eu detesto esses títulos académicos.
Com estas políticas o Interior está condenado, mas os fanáticos do PS não se importam. É preciso é não contrariar o número mágico. E depois da descoberta de que com a implementação dessa «medida» também mágica que é a distribuição de frutas nas escolas, o sucesso educativo está aí, em grande, os fanáticos do PS ficaram ainda mais felizes. O que eles não sabem é que não é preciso mais «medidas» nenhumas porque 100% de sucesso (ou quase) anda aí a pairar em todo o lado (quem é professor sabe bem do que falo).
Que interessa que a Câmara do Sabugal gaste quase um milhão de euros em transportes escolares, por ano, e passe a gastar mais se mais escolas encerrarem? O que interessa é que as escolas tenham o tal número mágico de alunos.
Lembro aqui que, em Junho do ano passado, foram aprovadas duas moções na Assembleia Municipal, contra o encerramento das escolas. Uma foi aprovada por unanimidade (e resultou da junção de uma proposta da Câmara Municipal com uma proposta do PS) e a outra, da autoria dos membros eleitos pela CDU, continha esta passagem : «A Assembleia Municipal do Sabugal repudia, veementemente, tal pretensão inscrita na Resolução do Conselho de Ministros n.º 44/2010, de 1 de Junho, por ser altamente lesiva dos interesses dos munícipes do concelho e solicita ao executivo camarário que não dê o seu aval ao encerramento de escolas do 1.º Ciclo do concelho de Sabugal, com menos de 21 alunos, pelo menos até estarem garantidas as condições ideais, nomeadamente a inauguração dos Centros Educativos e o seu completo apetrechamento, em recursos humanos e materiais.» Foi aprovada com algumas abstenções de membros do PS e, até, votos contra, de membros da mesma bancada.
Ora, que eu saiba, ainda não estão construídos os Centros Educativos, logo, em consciência, não poderá o Executivo Camarário dar o seu aval às pretensões (e pressões) do Ministério da Educação para encerrar escolas do 1.º Ciclo no concelho do Sabugal.
De qualquer maneira eu não espero nada de melhor dos lados do futuro Governo PSD/FMI. Tudo sempre para pior, parece ser o lema actual…

:: ::
Post-scriptum (para não escrever PS): Como político que sou (e faço gala de o ser) gostei de ver a manifestação da Geração à Rasca (eu também estou à rasca, com instabilidade profissional, a trabalhar com 50 anos, a 120 km de casa). Para os mais velhos foi como que um regresso ao 25 de Abril e para os mais novos uma nova maneira de encarar o mundo. Gostei, também, de ver a festa e os Homens da Luta, Vitorino, Rui Veloso, Fernando Tordo e Blasted Mechanism a cantar numa carrinha, como não se via desde o PREC. Mas transcrevo aqui um poema de Ruben Maria Moreira Brandão que encontrei no livro «25 Anos de Abril», de 1999:

Uma revolta na rua
Não muda país nenhum
Se ela não continua
Por dentro de cada um

«Política, Políticas…», opinião de João Aristides Duarte
(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com