Assisti um dia destes ao esplendor do acordar da natureza. Quando a primeira luz do dia apareceu encontrou-me com o «pequeno», o meu cão e inseparável amigo, a caminharmos pelas margens do Côa.

Rio Côa

António EmidioEste já estava acordado, as suas águas corriam mansamente por entre margens ornamentadas de frondosas árvores. Quando me viu ficou admirado.
– Já? A estas horas? Costumas fazer isto da parte da tarde.
– É verdade Côa. Eu quase todos os dias assisto ao nascer do Sol, mas hoje quis ter esse prazer junto de ti.
– Bem – haja – agradeceu-me – sabes que me sinto só? Há uns bons anos a estas horas, já os homens do campo com os seus animais estavam a trabalhar na terra. Sentia-os, como sentia as mós dos moinhos a moerem o grão, sentia o chiar das noras e das varas das picotas quando tiravam águas dos poços, ouvia o chocalhar dos gados que passavam. Agora, tudo é silêncio.
– Sinal dos tempos – respondi-lhe.
– Esses homens respeitavam-me e respeitavam a terra, sabiam relacionar-se connosco, trabalhavam muito, não para enriquecer, produziam para viver e ter o suficiente. O que vejo agora? Os campos crucificados, improdutivos, abandonados. Ouço os gritos angustiantes dos animais que vêm matar a sede nas minhas águas. Alguns chegam a morrer nas minhas margens. De fome uns, envenenados outros…Ouço os gritos lancinantes das matas queimadas. Poluíram-me as águas. Que mal fiz eu? Que mal fizeram as matas e os campos?
– Olha Côa! Hoje o homem tem muitos bens materiais que antigamente não tinha, mas na mesma proporção foi perdendo os bens morais, espirituais e humanos, que eram mais valiosos. Entre eles estava o respeito pela Mãe Natureza.
O Côa olhou fixamente para mim e esboçou um leve sorriso.
– Dou conta que vós, homens, estais cada vez mais voltados para o passado, sabes o que isso significa? Que não gostais do presente e temeis o futuro.
– O presente é uma realidade asquerosa, odiosa e baixa, culto do dinheiro, egoísmo, luta de todos contra todos, exploração do homem pelo homem, fome, miséria e desrespeito pelo meio ambiente. O futuro imediato pouco irá diferir do presente, mas um futuro distante terá de ser forçosamente diferente. Somos sete mil milhões de seres humanos, temos de começar a viver de outra maneira. O homem é cruel e louco! Bastava só uma pequenina parte do que os países ricos gastam em armas, em coisas inúteis e absurdas, para acabar com a fome e a pobreza no Mundo.
– O homem muda, sabe-lo bem, mas nunca deixa de ser ele mesmo. Séculos de vida ensinaram-me isto.
– É uma realidade. A inveja, a ambição, e ganância continuam bem vivas na sua alma. Felizmente que há homens e mulheres com sensibilidade social, amor pela natureza e pelo meio ambiente que lutam por uma transformação desta sociedade.
– Quem segue esse caminho passa a ser alguém incompreendido e só, humilhado e até perseguido. Esses homens e mulheres não estão à espera de recompensa alguma, nem de nenhum troféu. Conheci muitos, foram pessoas simples, já não há memória deles, está feita em pó, como está o corpo.
– Estão dentro do ventre da Mãe Natureza, estão no ventre de quem tanto amaram e respeitaram.
Levantei-me do montículo de erva onde estava sentado, já era dia claro. Despedi-me.
– Até ao próximo sábado, Côa amigo.
– Adeus. Olha! – exclamou – quando puderes vem fazer-me companhia.
– Sempre que puder virei.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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