Cavaco Silva, o Presidente da República que no mandato anterior nunca se podia pronunciar sobre quase nada, resolveu, agora, na tomada de posse para o seu novo mandato de cinco anos, pronunciar-se sobre uma série de coisas. Isto é, o Presidente República pintou a manta…

João Aristides Duarte - «Memória, Memórias...»Só que Cavaco Silva não existe só agora. Foi primeiro-ministro durante dez anos e Presidente da República durante o mandato do Governo de Sócrates (com o qual, aliás, concordou em tudo o que era fundamental e levou à actual situação). Não basta lançar umas frases-feitas do género «A pessoa humana tem de estar no centro da acção política. Os portugueses não são uma estatística abstracta. Numa República social e inclusiva, há que dar voz aos que não têm voz». Porque aqueles que têm memória lembram-se bem do que foi a governação de Cavaco Silva, enquanto primeiro-ministro e a nula preocupação com a pessoa humana que, então, evidenciava. Interessava era a economia.
Quem tem memória lembra-se bem de que nas eleições para a Assembleia da República, após o fim da era Cavaco primeiro-ministro, a campanha eleitoral foi baseada exactamente nisso. Afastar de vez o estilo tecnocrático de Cavaco e seus apaniguados e dar um andamento mais humanista à governação. Foi isso que o PS fez, com Guterres, nos cartazes onde estava escrito (e eu lembro-me bem) «as pessoas não são números». Cavaco Silva também vem, agora, apregoar que «o exercício de funções públicas deve ser prestigiado pelos melhores, o que exige que as nomeações para os cargos dirigentes da Administração sejam pautadas exclusivamente por critérios de mérito e não pela filiação partidária dos nomeados ou pelas suas simpatias políticas.» Ó Diabo!!! Esta é que não!! Então eu não me lembro que, quando Cavaco foi primeiro-ministro nomeou Zita Seabra para coordenar o Secretariado Nacional para o Audiovisual e assumir a presidência do Instituto Português de Cinema. Zita foi, mais tarde, ainda durante a vigência do Governo Cavaco, presidente do Instituto Português da Arte Cinematográfica e do Audiovisual. E alguém conhecia a Zita Seabra algum mérito nessas artes cinematográficas? Claro que não… foi nomeada, apenas, porque vinda do PCP, era necessário exibi-la com um troféu do PSD, a que, entretanto, aderira. Bem prega Frei Tomás!!!
Já sobre os jovens Cavaco Silva disse no seu discurso de tomada de posse que é tempo de eles fazerem ouvir a sua voz e que mostrem às outras gerações que não se acomodam, nem se resignam. Mas, alguém, alguma vez os proibiu de fazerem ouvir a sua voz? Porque será que eles têm andado caladinhos e só, agora, despertaram? Não será, também culpa de quem lhes prometeu «mundos e fundos» com os dinheiros comunitários, deixou criar mil e uma universidades privadas, com mil e um cursos (alguns dos quais não serviam para nada)? Quem se lembra sabe bem que tudo começou quando Cavaco Silva era primeiro-ministro. Também referiu que os sacrifícios que estão a ser pedidos aos portugueses têm que ter um limite. Está já aí o PEC IV da iniciativa do Governo, com mais “medidas” das tais. Veremos o que fará Cavaco Silva. Se apoia as “medidas” ou se não as apoia por achar que é tempo de um novo ciclo político, agora com o PSD ao comando. Mas dessas bandas também não se espera nada de muito diferente, senão vejamos:
– Tornar despedimentos ainda mais fáceis e baratos.
– Celebrar “contratos” orais.
– Reforçar o negócio privado com a saúde.
– Privatizar a RTP1, concessionar a RTP2 e acabar com a RTPN.
– Cortar deputados, freguesias e câmaras municipais.
– Pagar ordenados aos juízes… «à peça».
– Reduzir, ou mesmo acabar com o IRC para as empresas.
– Nomear embaixadores com perfil de gestão.
– Criar cheque-ensino e mais escolas privadas, como «opção».
– Aumento dos ordenados dos políticos, para serem os melhores a ocupar os cargos.
Ou seja, mais do mesmo, ou ainda pior. E Cavaco Silva vai deixar que os sacrifícios não tenham limites?
«Política, Políticas…», opinião de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

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